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Na segunda-feira em cheguei com a equipe da TV em um sobrado muito discreto na Vila Sônia, zona sul de São Paulo. A pauta falava da história de uma senhora chamada Maria José e de seus sonhos. Quando o enorme portão branco se abriu, me deparei com uma senhora de aparência frágil, mas um olhar profundo, onde era possível observar cada sofrimento vivido, mas também as vitórias alcançadas.
Logo na chegada, Maria José faz questão de mostrar a foto de sua filha Débora à “grande responsável” por tudo aquilo. Na mesma prateleira, muitas outras fotos de outras crianças. As que se curaram e aquelas que se tornaram anjos. “Faço questão de guardar todas aqui, pois fazem parte da história desta casa”. A casa que Maria se refere é a “Casa Modelo de Apoio à Criança com Câncer” (Camacc), que já recebeu mais de mil crianças desde sua fundação.
Maria se emociona ao contar a história de Toni, um garoto que acabava de chegar de Rondônia com a mãe. Sua missão era levá-lo ao Hospital das Clínicas, em São Paulo, o mais rápido possível. Corroído por um tumor ósseo, o menino de 8 anos gritava de dor. Nenhum médico teve o cuidado de engessar sua perna quebrada para enfrentar a viagem de avião.
Assim como Toni, muitas crianças chegam diariamente a São Paulo em busca de tratamento do câncer. Na segunda-feira, havia 32 pessoas na casa, que serve de hospedaria para famílias de baixa renda que chegam de outros estados e até de outros países e não tem onde ficar em São Paulo.
Há dez anos, era Maria quem chegava sozinha e sem dinheiro de Rondônia, tendo por destino o mesmo Hospital das Clínicas. Nos braços, trazia Débora, um bebê de 2 meses. Hoje, ela revê o filme de sua vida a cada mãe que chega para morar na casa que criou.
Maria José Rocha de Souza nasceu numa família pródiga em filhos, mas escassa de recursos. Aos 8 anos, vendia banana de porta em porta pelas ruas de Porto Velho. Aos 18, descobriu-se grávida. O namorado deu-lhe as costas. O patrão a demitiu da padaria. Maria enfrentou sozinha a gravidez. O bebê nasceu, mas não mamava. Já veio ao mundo com câncer no esôfago.
Mãe e filha foram despachadas para São Paulo. Maria desembarcou no aeroporto com frio e com medo. “Fazia 7 graus, a gente não tinha nem roupa de frio. Chorei três dias seguidos”, diz ela. Débora ficou internada durante 11 meses. E Maria passou noite após noite dormindo em uma cadeira dura, ao lado do leito da filha. Conheceu ali uma quantidade de Marias que deixam suas vidas para trás para salvar a dos filhos. Foram cinco anos vivendo entre a casa de apoio que a acolheu e o hospital.
A saga de Maria poderia ter terminado quando Débora se curou. Mas ela estava decidida a criar sua própria casa de apoio e dedicar sua vida as Marias que chegam diariamente com seus filhos nos braços, lágrimas nos olhos e a esperança da cura. Maria José continua sonhando e cada diagnóstico de cura é uma vitória diferente. Quando uma dessas crianças reconquista o direito a vida, Maria José sente a certeza de que pequenos momentos mudam grandes rotas e ela descobre isso a cada dia, desde que pegou sua filha curada nos braços e decidiu que a sua felicidade poderia ser compartilhada com muitas outras mães.

Danilo Manha é jornalista, radialista, pós-graduado em comunicação empresarial e gestão pública, mestrando em comunicação e repórter da TV Record.





