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21/12/2011

O desafio de incluir, sobre sorrisos e direitos

Na terça-feira tive a oportunidade de participar da cerimônia de premiação da sétima edição do concurso Causos do ECA, promovido pela Fundação Telefônica e que tem como principal objetivo estimular a inclusão de crianças e jovens através do Estatuto da Criança e do Adolescente.  Lá conheci um jovem professor de história chamado Leonardo José Da Silva que utilizou do ECA para promover mudanças estruturais na vida de muitos alunos.

 

Leonardo aceitou o cargo de diretor administrativo da Escola Municipal Manoel Bezerra Fortaleza, e, buscando atender melhor as exigências e responsabilidades inerentes ao cargo, ali resolveu fixar residência.

 

O educador conta que se encantou pelo lugar pequeno, de gente acolhedora, onde pode acordar ao som lindo de sabiás cantando e chamando o dia. Logo no início do período letivo de 2010, no percurso de sua casa até a escola, se encantou com a cena de inúmeras crianças se dirigindo à escola pela única rua pavimentada do lugar. Em especial, chamou sua atenção uma garotinha que, visivelmente, tinha deficiência física e intelectual. Sentada na calçada de sua casa, acenava a todas as crianças com um largo sorriso e com uma voz um tanto embaralhada, chamando-as pelo nome.

 

Logo após dar as boas vindas a alunos e professores no primeiro dia de aula, o professor buscou saber quem eraaquela criança, que ficou em seu pensamento, com aquele sorriso e olhar que parecia abraçar o mundo. Em resposta, deram-lhe seu nome e contaram que a mãe não a aceitou por conta da deficiência, e que aquela garota morava com a avó, D. Cândida, 82 anos, que a acolhera, passando a ser sua única companhia. Insistente o educador quis saber um pouco mais e se surpreendeu quando foi informado que a pequena garota nunca havia frequentado a escola. Desde então, quis aproximar-se daquela criança e passou a observar que todos os dias, infalivelmente, ela estava lá, na calçada, a saudar todos os que passavam em direção à escola.

 

 

Após a primeira semana, decidiu que era hora de  fazer uma visita a D. Cândida e sua neta. Foi acolhido com muito carinho e, diante da modéstia da casa e da figura idosa e doente daquela senhora, não conteve as lágrimas. Foi direto ao objetivo de sua visita e perguntou se a Alcione – esse é o nome da criança – gostaria de estudar. Um largo sorriso se abriu, um rosto ganhou luz e, em um aceno rápido com a cabeça, um sim tímido quebrou o silêncio. D. Cândida alegou que não adiantaria em nada, pois a Alcione não aprenderia. No entanto, Leonardo defendeu que ela poderia se socializar e se desenvolver com o contato com outras crianças. Concordaram então que, na segunda-feira, Alcione iria a seu primeiro dia de aula. 

 

O desafio era, então, preparar a escola, entrar em acordo com uma professora, conversar com os alunos e, em seguida, com os pais, para que o convívio com a aluna especial fosse possível e saudável. Pela faixa etária, primeiro o professor pensou em acomodá-la na turma do 3º ano, com a professora Marta que, de pronto, não apenas aceitou o desafio de incluir a Alcione em sua turma, como também, por ser vizinha, o de acompanhar a aluna até a escola e, ao fim da aula, levá-la de volta. Duas barreiras já haviam sido vencidas. As crianças acolheram a ideia com tranquilidade e Alcione foi estudar. Naquela segunda-feira, deixou sua calçada e passou à sala de aula.

 

Contudo, o obstáculo principal foram alguns pais que vieram questionar e reprovar a atitude dos educadores, alegando que seria muito perigoso uma criança deficiente no meio das "normais". Alguns falaram que proibiram os filhos de aproximar-se dela. Foi então que o Estatuto da Criança e do Adolescente entrou em ação.  Com base no ECA, Leonardo explicou que estudar era um direto da Alcione e que, mesmo não dispondo de meios apropriados e de profissionais capacitados, poderiam e deveriam fazer esse direito efetivar-se na escola. Deram o prazo de 15 dias para assegurar que a presença de Alcione não seria um problema. 

 

O resultado foi surpreendente. Alcione conquistou o carinho de seus colegas. Ela congregou um grupo de três novas amigas mais próximas que passaram a auxiliá-la em sala de aula e que, quando chamadas, após os 15 dias, para avaliar a inclusão da Alcione na escola, responderam com uma simplicidade que envergonhou a postura discriminadora dos pais: "A Alcione já é nossa amiga, cuidar dela nos serve de reforço, a gente acaba estudando duas vezes".

 

A decisão estava tomada. Alcione passou a ser aluna regular e, mesmo não tendo avanços na área de conhecimentos teóricos, melhorou sua fonética e envolveu-se em todas as atividades. Além disso, passou a contar, ainda, com o estímulo de uma senhora chamada Rogéria, que a amadrinhou e a estimula a continuar gostando da escola com o envio de material pedagógico.

 

Leonardo concluiu a história constatando que nós, ainda temos muito a aprender e que, às vezes, as principais lições brotam de uma calçada, de um lindo, diferente e silencioso sorriso. 

 

Danilo Manha

Danilo Manha é jornalista, radialista, pós-graduado em comunicação empresarial e gestão pública, mestrando em comunicação e repórter da TV Record.


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