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15/11/2011

A invasão da USP

A violência contra os universitários paulistas não é fato recente.  A  Faculdade de Direito de São Paulo, foi criada pela lei imperial de 11 de agosto de 1827, isto é, cinco anos depois do  grito de independência, liderado por  Dom Pedro I. Os estudantes bradaram, em prosa e verso, a libertação dos escravos (1888), apoiaram a proclamação da República (1989), reagiram contra a ditadura Vargas (1930), resistiram ao golpe militar de 1964 e exigiram eleições diretas para presidente do Brasil (1983).   

 

A Universidade de São Paulo surgiu em 1934, reforçando uma tradição de inteligência e autonomia estudantil.  Ao longo da História, devido à firmeza de propósitos, milhares de alunos e professores foram presos, torturados e assassinados. São heróis anônimos.   As gerações trazem no peito, pois a dor cíclica da repressão.     

 

Presenciei alguns fatos estarrecedores patrocinados pelas baionetas da ditadura mais recente.  Permanece fresca na minha memória a violência contra os estudantes da Universidade de São Paulo – USP.  Conclui o curso de Direito no Largo de São Francisco, em 1965. 

 

Ao tempo do presidente  João Goulart (1961/1964),  o Centro Acadêmico XI de Agosto convidou o ministro Pinheiro Netto, da pasta do Trabalho e Previdência Social, para uma palestra que seria proferida no salão nobre da Fadusp. 

 

À época, a conspiração contra a estabilidade democrática grassava de vento em popa.  Mas, ninguém acreditava num golpe contra o Estado de Direito. O importante era discutir abertamente  as reformas econômicas e sociais em pauta.  Os universitários pediam, prioritariamente,  profundas mudanças no sistema educacional brasileiro, cada vez mais decadente.   

 

Os acadêmicos aguardavam o ministro à porta do prédio, quando alguém fardado, subiu na Tribuna Livre e disparou uma rajada de  metralhadora contra a massa presente, na altura de dois metros. Pânico geral, correria e forte cheiro de pólvora. Atônitos, trancamos as portas de entrada, com medo que a tresloucada ação continuasse. Contabilizamos os ferimentos. As balas estilhaçaram os vidros do portal e alojaram-se nas paredes.  Em sinal de protesto ocupamos o prédio da escola por quase quarenta dias. Retornamos às aulas sem incidentes. 

 

Instalada a ditadura de 1964, os líderes estudantis foram obrigados a abandonar o curso, para viverem clandestinos em seu próprio país ou na condição de exilados.

 

No campus da universidade (Butantã-), instalado às pressas em 1968, centenas de alunos passaram a residir nos alojamentos do CRUSP.  Sem mais aquela, colocados sob suspeita, todos foram presos  e removidos às  dependências do Departamento de Ordem Pública e Social, o temível DOPS. Às alunas coube o antigo presídio da Avenida Tiradentes, destinado às prostitutas. Claro,  recusaram-se a entrar, agravando uma situação já muito tensa.     

 

Tem mais. Em Ibiúna-SP,  durante o  congresso da União Nacional dos Estudantes (outubro de 1968) milhares  de universitários foram  presos arbitrariamente.

 

A ditadura militar também rondou a Casa do Estudante do Centro Acadêmico XI de Agosto, na Avenida São João, 2044. Diuturnamente sofremos as ameaças das forças repressoras.  Lá residiam cidadãos da estirpe do Michel Temer, hoje vice-presidente da República e do Rui Falcão, deputado  e atual presidente  do Partido dos Trabalhadores.  

 

No dia 22 de setembro de 1977 “a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) foi brutalmente invadida, numa ação comandada pelo coronel Erasmo Dias.  O III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), cujo objetivo era tentar reorganizar a UNE,  foi considerado um ato subversivo pelos homens do exército”. (pucjornalmc. wordpress.com - 2007). Resumindo a tragédia, centenas de estudantes sofreram  constrangimentos, queimaduras e outros ferimentos graves, por conta dos cassetetes e das bombas de efeito “moral”. 

 

E por aí vai.   Tradicionalmente, pois os estudantes da USP lutaram e continuam lutando contra a opressão e a violência deitada sobe a sociedade brasileira.  Os cenários da política mudam. O sentimento de liberdade, entretanto, é  eterno.  

 

Portanto, a segurança pública foi banida do território livre da Universidade de São Paulo por razões óbvias. Precisamos respeitar  a memória dos estudantes mortos pela repressão.  O magnífico reitor da USP, entretanto,  na contramão da história, decretou a anistia aos algozes, por motivo  do assassinato de um estudante, em pleno  campus,  desta vez por assaltantes. 

 

Mas, lamentavelmente, apesar do amplo policiamento que ali se pretende,  a criminalidade sempre  restará impune, como tal nos quatro cantos do Brasil, onde bandidos e  drogas permanecem  a tiracolo  do Poder. 

 

Aliás, o combate aos delinqüentes poderia ser feito por meios mais eficazes. Com a palavra a Faculdade de Arquitetura de Urbanismo que bem poderia projetar um campus fisicamente seguro. A questão é complexa e envolve todas as  instâncias institucionais, inclusive a polícia.  

 

A recente ocupação do prédio da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras pelos alunos  e a repressão pela tropa de choque,  em cumprimento ao mandado judicial, não é um fato isolado. Relaciona-se com  acontecimentos passados, presentes, com  importantes reflexos no futuro. 

 

Nos dias que correm, as populações tomam as ruas para protestar  contra as  medidas de austeridade, impostas pelos governos dos  países estampados em  euro e dólar. 

 

Em breve os brasileiros sofrerão idênticas agruras, apesar da euforia desenvolvimentista do Planalto. Poderão ocupar as praças públicas, em sinal de protesto. Os estudantes da USP, certamente, endossarão as  manifestações, exigindo mudanças urgentes.  Teme-se nova invasão  dos  campi universitários pelas tropas de segurança. A guerra, ora camuflada,  seria declarada  outra vez. Não esquecer que as ditaduras são como bumerangues. Vão e voltam, em detrimento dos interesses maiores da humanidade. 

 

Enfim, onde se persegue estudantes logo estarão  mortas as idéias libertárias. 

 

 

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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