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28/11/2011

O sangue do século 20

Estava à toa na vida, estalando  os dedos ao ritmo da Banda do Chico Buarque, quando uma  inexplicável  letargia  escarrapachou-me   no sofá.   Sonhei, acho que sonhei, imaginem,  com o   século mil e novecentos,  findo a poucos anos atrás.  Na verdade, pensando bem, trata-se de assunto afeito mais  aos  pesadelos.  Digo na lata pesadelo, sem pestanejar, devido tratar-se o período  de uma tragédia sem precedentes na história universal. 

 

Pois bem,  observo que as gerações ainda choram os horrores  das guerras mundiais de 1914 a 1918 e  de 1939 a 1945. A primeira  contabilizou  10 milhões de mortos e 30 milhões de feridos. No suplício das trincheiras os soldados padeceram de fome e doenças. Tudo em nome da conquista de  novos mercados,   politicamente fracos e submissos.     

 

Na  segunda grande peleja bélica,  o fascismo italiano, liderado por Benito Mussolini,  de braço dado com   o nazismo de Adolf Hitler ( Eixo),  pretendeu expropriar o  petróleo  da ex-União das Repúblicas Socialistas e Soviétícas (Chechênia), de diversos  países do oriente médio, além  da  China (Manchúria).  A ganância tingiu  de sangue toda  a  geografia da ferocidade imperialista. Morreram mais de 30 milhões de seres humanos, entre civis e militares. 

 

Paralelamente aos “malfeitos” maiores,  assistimos estarrecidos   a Guerra Civil Espanhola, o Holocausto,  a bomba atômica explodindo    em  Hiroshima e Nagazaki,   a guerra  do Vietnã, a “guerra fria”  e tantas outras desgraceiras de doer na  alma. De quebra a revolução  anti-capitalista, de 1917, nascida  na Rússia. A morte rondou todos os espetáculos em cartaz. 

 

E o Brasil, como se comportou  diante  das sanhas européia e americana?  Na primeira grande guerra, o país  era governado por Venceslau Brás Pereira Gomes, apoiado pelas oligarquias do “café com leite” (São Paulo e Minas Gerais).   Não se  enviou tropas a lugar nenhum.  Assim, milhares de vidas brasileiras  foram poupadas. 

 

Na segunda grande guerra,  o  presidente-ditador Getúlio Vargas, que abocanhou  o Poder,  através da Revolução (golpe) de 1930,   sob  supervisão   dos Estados Unidos da América, instalou o Estado Novo, inspirado na doutrina corporativista  de Mussolini. Traiu, a contra - gosto,  a ideologia  nazi-fascista. Apoiou os Aliados.   Verteria, como verteu,  muito sangue verde-amarelo, independentemente da opção   que  apostasse.

 

O século  20 contabilizou  ainda   dezenas de  outras   lutas e revoluções  dentre as quais: Revolta da Chibata (1910); Guerra do Contestado (1912/1916); Revolta dos 18 do Forte (Tenentismo 1922); Coluna Prestes (1923/1925); Revolta paulista de 1924; Revolução constitucionalista de 1932; Intentona comunista de 1935; Intentona integralista de 1938; golpe militar de 1964; Luta armada – guerrilha urbana e rural (1965/1972); Guerrilha do Araguaia 1967/1974.  

 

O Estado brasileiro, como de praxe a qualquer tempo,   interveio com violência brutal, promovendo prisões, torturas e a morte dos opositores.  

 

Claro,  não poderia ser diferente,  Atibaia sempre se envolveu nos  acontecimentos havidos além  das divisas municipais. As vítimas serão eternamente lembradas. Delas nos  ocuparemos em outras linhas e  oportunidade.

 

Passado o efeito letárgico, preocupa saber que o presente século 21  anuncia percurso  idêntico ao  rastro de   violência de ontem,  ora  regado a cruenta  crise  financeira e exaustão do planeta; que as ditaduras, com plumas de modernidade, voltarão para salvar a pátria; que setores públicos  da vida brasileira  ensaiam os passos  do autoritarismo e  que a  segurança pública reinará a pleno vapor, a pedidos. 

 

Por isso, lenços a postos que existem muitos conflitos em gestação, dispostos  a novo derramamento de   lágrimas de dor. Os motivos e as  desculpas da turminha da concentração da grana na algibeira de meia dúzia de gatos pingados, se   repetem impunemente, porque a memória coletiva é curta. A mídia encarregar-se-á de  apagar tudo. Hitler e Mussolini ressurgirão  das cinzas, recauchutados,  portando  armas   “inteligentes”, a custo de trilhões de dólares. Os especuladores  e traficantes  agradecem. 

 

Daí, já assistimos o filme, muitos filhos, netos e bisnetos  da sociedade consciente   morrerão ingloriamente nas batalhas por  mudanças  sociais e políticas  urgentíssimas,  em prol da  sobrevivência  da humanidade. A história se repete. Mas, apoquentem-se todos: não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Eis a esperança!    

 

E você  caro leitor do ano 2050,  que graça ou tristeza lhe trouxe  estas constatações  em letras  do início do século 21?

 

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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