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07/12/2011

As chuvas vêm aí

Era uma vez um ministro   preocupado com as   tempestades  que assolavam  o reino anos  após anos.  Os servos  sofriam. A produção idem. As riquezas rolavam água a baixo. Como solucionar o problema?  

 

A recordação dessa história me retornou  aos   bancos acadêmicos  do largo de São Francisco e  fez retirar  do baú as célebres aulas do   professor Ataliba Nogueira.  Vira e mexe  referia-se aos absurdos  desacertos do tal governante. 

 

O mestre Ataliba,  titular da  disciplina  Teoria Geral do Estado,   publicou      “O Estado é meio e não fim”,  obra cantada em verso e prosa pelos alunos  de todos os tempos.

 

Monarquista, sempre defendeu a restauração  do trono brasileiro, pertencente por  direito aos  Orleans e Bragança.  Um dos componentes da  família sangue azul,  com porte de príncipe, fez o curso de Direito na década sessenta do século passado, na contemporaneidade dos meus passos universitários. Os nomes e  sobrenomes do moço eram tantos que impossível guardar  na memória.  Lembro-me  tão somente   do Pedro,   Manoel    e Alcântara.     

 

O professor cumpria     protocolo especial ao tratar com o dileto discente.   Ambos  defendiam  a ideologia    com unhas e dentes.  Acreditavam piamente  na coerência e magnitude dela. Não era pra menos

 

Do alto das lições  o   mestre asseverou: “ (...) O Estado tem como limite de sua ação servir de meio para realizar o bem dos cidadãos. Esse é o seu fim natural. Não pode ele sobrepor sua burocracia para impedir a livre realização pessoal de seus cidadãos que têm direito à vida, à verdade, à prosperidade honesta e à segurança como pessoas, famílias, grupos, empresas, sem restrições e sem violências de grupos, nem falsidades ou tratamentos arbitrários (...). (Edição Saraiva, 1955).

 

Perfeito. Pena que os estadistas atuais   cabularam essa aula. Não satisfeitos, jogaram o livro no lixo.   Hoje a coisa pública  migrou  para os bolsos  dos  especuladores  e dos  senhores  deuses da guerra.   O povo que se dane!

 

 

Mas, retornemos  ao título proposto para o artigo. As chuvas já apontam no  horizonte do ano novo e ninguém encontra solução para a enchente dos rios e córregos que cortam a zona urbana do município. As  opiniões “técnicas”  batem cabeça e ninguém   se entende. Enquanto isso,  a dor humana e os prejuízos materiais  se avolumam.  

 

 

O transbordamento   do rio Atibaia  é um fenômeno natural perfeitamente previsível. Acontece desde que o mundo é mundo. Os rios cavam  seu leito, demarcado a área máxima que ocupará  ao receber  uma quantidade de água superior ao  costume. A várzea ou a área de segurança demarcam   os extremos donde o rio passou  e voltará a passar.  Quem desrespeitar as leis da natureza  será punido exemplarmente. Não acredite em impunidade!  

 

A partir de 1970,  Atibaia conheceu os moradores ribeirinhos, nunca dantes imaginados. Não  se trata de invasores de  alagadiços. Compraram legalmente  lotes urbanos donde construíram suas casas. São milhares.

 

Retomo agora à  frase de abertura  do texto. Pergunto: que solução encontrou o ministro,    diante  das catástrofes  que castigavam  as terras  do rei?  Impotente para  enfrentar as forças da natureza e com receio de  ser chamado de inoperante,   determinou que as tempestades fossem   riscadas do calendário.  Proibido tocar no assunto, Caso encerrado.   

 

 

 

 

 

 

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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