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06/02/2012

A Dilma em Cuba

Antemão  declaro que não votei na Dilma,  apesar de ter aprendido  soletrar a política   nos discursos de Leonel Brizola (PDT),  donde a presidente  nasceu para a  política. Por que? Diga-me com quem andas e te  direi quem és.  Há que ser verdadeiro.   De muito costumo separar o marketing  político do trigo, pois de pão vive o homem. O circo alimenta o espírito, porém   sempre alheio à fome que grassa  pelas aí.    

 

Pois bem,  a presidente  de  todos os brasileiros  (leia presidenta quem se lhe aprouver) viajou  levando na bagagem a pecha de um  governo corrupto e corruptor.  Para livrar-se das perguntas embaraçosas,   desviou  o assunto para a questão dos direitos humanos. A mídia mordeu a isca, fincando pé  nas angústias dos dissidentes,  ainda proibidos pelos irmãos Castro  de colocar a boca no trombone da  liberdade de expressão.  

 

 

Nova saia justa. A Dilma saiu-se pela tangente óbvia: “Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós, no Brasil, temos os nossos” (...) “ Se falarmos em direitos humanos em Cuba, vamos ter de falar  de direitos humanos no Brasil, nos EUA,  a respeito de uma base aqui se chama Guantámano” e “Não é possível  fazer da política de direitos humanos só uma arma de combate político-ideológico.”

 

Claro,  se atentarmos bem,  observaremos  que a mandatária  conseguiu lançar uma  cortina de fumaça,   que deletou   a palavra roubalheira.  O  bombástico  pronunciamento promoveu  forte impacto nas manchetes  de todo mundo. Nem por isso deixou de ser intrigante. Qual a parte que nos cabe  nesse latifúndio de violência?   Ora, não é segredo que a segurança pública   não distingue ou encontra séria  dificuldade para   diferenciar o pobre homem do povo dos bandidos perigosos. Na boca do forno o caso Pinheirinho, de São José dos Campos - SP. Isso já basta.  A lista de atrocidades   é longa e remonta aos tempos  de Pedro Álvares Cabral.  

 

Por outro lado é  inegável que os Estados Unidos da América não respeitam a autodeterminação dos povos. Invadem o território alheio  tal qual a casa da mãe Joana,  em nome de lucros fantásticos (petróleo).  A democracia  made in Tio San  destina-se apenas ao mercado doméstico.  Além disso, os   ricos conservadores (direita)   conspiram  até hoje contra o  regime socialista cubano.   A guerra fria  ou militar, pretendem,  continuará  até o desmoronamento do último inimigo ideológico.   

 

Mas, a viagem da presidente Dilma  transcende  aos preconceitos políticos, graças a Deus.  Cuba se abre para o futuro aproveitando da  experiência bem sucedida  da China. O Brasil torna-se um grande parceiro de ambos os países.  E o que isso significa?   O ranking   econômico nos coloca em 6º lugar, espantando a crise que ronda americanos e europeus. Temos  tudo que  os tais socialistas precisam em  razão dos próprios desenvolvimentos. Vendemos comodities (produtos) e matéria prima  estimados  a bom preço. Importamos produtos manufaturados.

 

O Brasil está investindo  em Cuba US$ 523 milhões  de dólares,   na ampliação do  Porto Mariel, que se tornará uma dos maiores da América Latina. A obra   está a cargo da patrícia  construtora  Odebrecht. Aliás, as negociações com Cuba iniciaram-se no governo de presidente José  Sarney, na década de oitenta do século passado. ( A convite, este escriba integrou  a comitiva  quebra-gelo  composta de deputados, prefeitos e secretários de Estado).     

 

 

Entende-se, pois, o desespero dos dissidentes cubanos,  liderada  por  Yoany  Sánchez, que cada vez mais  se  distanciam do Poder e da primavera Castrista,  apesar do apoio da mídia internacional.

 

A globalização inventada  pela  democracia  neoliberal,  em benefício de poucos,  patinam na lama da corrupção especulativa. Promoveu  crises.  Os tempos são outros. Ouvimos no riacho do Ipiranga o vagido de um novo paradigma.     

 

Post scriptum:  aos   eternos inconformados dedico a frase  estampada nas avenidas  de Havana durante a visita do  Papa,   em 1998: “ Esta noite milhares   de crianças dormirão  na rua. Nenhuma delas é cubana”. O Papa retornará ali em março de 2012, diante de idêntica realidade. Oxalá. 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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