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11/06/2011

Corrupção e impunidade de Cabral a Palocci.

Início de 1500. A corrupção  atravessou o  Atlântico,   com passaporte diplomático, instalada  num  camarote de luxo da esquadra de Pero Álvares Cabral.  Ninguém duvida  que o  navegador  se pôs ao mar com destino  a Índia, para negócios   com  os países da Ásia, produtores  de especiarias, isto é, o produto mais cobiçado   da época. A idéia portuguesa  era reduzir os custos  da importação   terrestre e, quiçá   monopolizar,  pela via marítima, o comércio do cravo, da canela e  da pimenta.  
A estratégia  consistia em persuadir  os vendedores, por bem  ou por mal. Preparados para o que desse e viesse,  os lusitanos  carregavam    baús com  moedas de troca. Mas,  não  se enganem, em caso insensibilidade  aos apelos da corruptivos,  os fuzileiros da esquadra  entrariam  em  ação. O intento seria alcançado pela violência. O final do filme se conhece: os portugueses acararam  ludibriados e mortos. Salvou-se Cabral. Pero Vaz  de Caminha não teve a mesma sorte,      
Antes da desventura da Índia, Cabral  aportou em  terras achadas, hoje Brasil. Aqui deixou uma pitada   de gente disposta a corromper os nativos  com espelhos, miçangas e outras quinquilharias.    
As investidas portuguesas, em busca de  riquezas continuaram. A expedição  de Martim Afonso de Sousa (1530), reuniu  mais de mil homens amados, a procura  dos tesouros indígenas.  Desinformados,  invadiram o estuário do Prata (Argentina e Uruguai)  ao invés do Peru.     Os poucos sobreviventes retornaram de mãos vazias.
A corte de D. João VI, instalada no Brasil  em 1808, gerou muita corrupção, trazida dos hábitos portugueses.   O povo  recitava   quadrinhas indignadas.      “ Quem furta pouco é ladrão/Quem furta muito é barão/Quem mais furta e mais esconde/Passa de barão a visconde”  ou  “Furta Azevedo no paço/Targini rouba no erário/ E o  povo aflito carrega/Pesada cruz ao calvário”. Alusão a Azevedo (visconde de Rio Seco) e  Targini (visconde de São Lourenço). O  Gregório de Matos   denunciou em seus versos a corrupção e  as ilegalidades praticadas nesse tempo.
No período imperial, Dom Pedro I não conseguiu  criar um Estado íntegro e competente, apesar dos esforços do  José Bonifácio de Andrada e Silva. Venceu o  atraso rural de patriarcal, alicerçado no personalismo. Os políticos l  não separavam  os interesses públicos do privado, tal e qual as acusações contemporâneas   contra o ex-ministro Pallocci.
A República  também foi maculada pelos hábitos corruptos,  tanto  no período da proclamação (1889), como na República Velha, nas ditaduras de Getúlio Vargas e  dos militares  pós 1964. O retorno à democracia,   liderada por Ulisses Guimarães (1988),   não impediu o acesso dos ladrões  ao poder.
A corrupção eleitoral  se fez  com o transporte massivo dos eleitores até o “curral”. Ofertava-se  um pé de botina. O outro só depois o dever cívico cumprido, tudo regado a churrasco.  O uso do marketing político  transformou o candidato num produto e o  eleitor  em mero consumidor.  Que dizer do “mensalão” , do dinheiro transportado na cueca e das contas bancárias  no exterior?
Nos últimos 40 anos os escândalos envolvendo dinheiro público   explodem diariamente nos jornais. Nunca   um corrupto  foi preso ou cumpriu pena carcerária. A Lei  popular da “Ficha Limpa”   até agora não produziu os efeitos desejados. Políticos jovens acanalharam-se, incentivados pela impunidade.
A corrupção  torna o Brasil um país  frágil e subserviente a interesses  escusos. Agrada aos  piratas e saqueadores da economia  internacional. Impede a construção de um  brasileiro livre, em condições de  usufruir da boa educação e saúde. Inútil o  combate da pobreza com programas paliativos. 
Esse modelo, exaurido,  não vai se perpetuar. A crise sistêmica  generaliza-se pelos quatro cantos do mundo. O século XXI nos reserva grandes  e promissoras surpresas.  As  mudanças têm pressa..

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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