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18/06/2011

Dois pesos, duas medidas

Sempre suspeitei das pressões midiáticas (televisão, rádio, jornais e revistas),  no caso da extradição de  Cesare Battisti.  A negativa  de entregá-lo   ao governo italiano     partiu do então ministro da justiça Tarso Genro, intelectual   que reputo  sério e competente.    

Não entendia  o porquê o todo poderoso primeiro-ministro   Sílvio  Berlusconi jogar  todas as fichas  no episódio.  Transformou  a querela “brasiliana” num fato de vida ou morte. Por que o exagero?

A explicação  do desvario veio com o resultado do plebiscito realizado naquele país. As propostas defendidas por  Berlusconi foram derrotadas fragorosamente. O governante tentou desesperadamente reverter  a tragédia, sem sucesso. Antes já havia perdido eleições  em  Napoli e Bolonha, até então redutos conservadores.   Sem nenhum  pudor agarrou-se ao caso Battisti,  travestido-se em defensor do brio do povo italiano.

Vale lembrar que as acusações que pesam contra o Berlusconi são  muito mais graves que as atribuídas a Battisti. Aliás, a condenação  criminal do ativista  aconteceu à revelia,  com base no depoimento  dos companheiros, beneficiados  pelo instituto da delação premiada.  Trocando em miúdos, as “testemunhas” podem ter transferido  a culpa pelos  4 (quatro) assassinatos em Battisti, para se livrar do processo e da  prisão perpétua.

Um caso  de extradição puxa outro.  O governo  do   ditador Getúlio Vargas, apoiado pela mídia,  entregou aos nazistas,   a comunista  alemã-israelita  Olga Benário,  tornando-a mais uma vítima do Holocausto. A prisão ocorreu no Rio de Janeiro,   depois do vasculho , obsessivo,  casa por casa.


Agora, quando se trata  de   bandidos de colarinho branco, assaltantes, criminosos de guerra ou ditadores estrangeiros  a mídia  tradicionalmente  se cala.   Nada denuncia. Por exemplo, o  asilo  de fato concedido a Ronald Biggs, em 1970. O inglês fugiu da  penitenciária Her Magesty´s Service, depois de condenado pelo assalto a um trem postal, embolsando  2,6 milhões de libras

E tem  mais.  Alfredo Stroessner, sanguinário ditador paraguaio por 34 anos, acusado   pelo assassinato de  15 mil opositores,  viveu tranquilamente  no Brasil de 1989 a 2006, quando morreu. Na mesma esteira Lúcio Gutierrez, ex-presidente equatoriano.

 

Lembram-se do Josef Mengele? Trata-se de um médico  nazista  responsável por milhares de mortes  em  experiências macabras e, ainda por  genocídio praticado  em câmaras de gás durante o regime de Hitler.   E do  sargento-carrasco Gustav Frans Wagner, jamais extraditado,  que morou, suicidou-se e foi enterrado em Atibaia.

 

Ah! E do O Salvatore Cacciola,  controlador do Banco Marka,  que especulou as majorações do dólar  no Brasil, causando  prejuízos financeiros ao país. Condenado, fugiu tranquilamente  para a  Itália,  onde nunca foi molestado, apesar de reconhecido nas arquibancadas das transmissões  de futebol. Foi preso no Principado de Mônaco, por acaso. 
      

O governo Lula (neoliberal de “esquerda”) concedeu asilo de embaixada  ao presidente hondurenho Manoel Zelaya, deposto num golpe de trogloditas  latino-americanos.  A mídia brasileira, para variar, apoiou  a violência dos assaltantes do poder.  Instalou-se  lá um regime de exceção, numa América Latina  redemocratizada.     

 

A mídia brasileira  induz  a vontade do povo, manipulando o ódio e o aplauso, segundo as conveniências do Poder. (A escola  pactua quando   não ensina o aluno a pensar). Trata  desigualmente os adeptos das  ideologias adversas. Olga Benário e o  Cesare Battisti, por serem  de esquerda,   não fugiraam  à regra. A ira desabou sobre sua liberdade de ambos.

 

Ora, qualquer  punição de estrangeiros  deveria  ser sempre justa, ampla e coerente, livrando-nos  da alcunha  de país paraíso da impunidade dos mais fortes.  A estabilização democrática  não se constrói sob  inspiração das Tábuas da  Lei da Selva.

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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