
Alinhavos eleitorais para 2012
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Os milagres de Nossa Senhora da Consolação
A crise dói no lombo do povo
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Atibaia, cem anos de enchentes
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Reflexões políticas para 2012
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O pioneirismo na educação atibaiense
Sobre a delicadeza humana
A Dilma em Cuba
Os meninos da feira
Um bode na sala
O voto consciente Em Atibaia, a briga Pires versus Camargos durou mais de 300 anos. Tudo começou por volta de 1640, com a restauração do trono português. Nos 60 anos anteriores, os reis da Espanha (Felipes I, II e III) dominaram Portugal e a colônia Brasil. Ditaram as ordenações (leis) e a política.
Os Pires mantiveram-se sempre fieis à Coroa Lusitana. Os Camargos defendiam os interesses espanhóis. A resistência à reintegração dos Pires ao poder paulistano foi liderada pelo Juiz-Ordinário Jerônimo de Camargo.
Á época, as Câmaras de Vereadores mantinham uma estrutura feudal. Detinham poderes judiciais, executivos e legislativos, a um só tempo, isto é, decidiam sobre todas as questões da sociedade. O vereador, investido no cargo de Juiz- Ordinário, enfeixava nas mãos poderes absolutos.
A independência portuguesa de 1640 significava que os Camargos, e seus aliados, deveriam devolver o poder aos Pires.
Qual o quê. Ledo engano. Jerônimo de Camargo articulou um movimento de independência de São Paulo, obviamente com viés monárquico-filipino. Amador Bueno, o cidadão mais rico, foi aclamado rei. Abdicou antes da posse e, em troca, foi perdoado pelos inimigos.
Mais um movimento de libertação do jugo português acabou derrotado. A cabeça de Jerônimo de Camargo foi colocada a prêmio. A Santa Inquisição afiou as garras. O líder embrenhou-se mata à dentro, em defesa da própria vida.
Fugiu e instalou-se num lugar militarmente estratégico, cujo relevo muito se assemelhava ao do Pátio do Colégio, escolhido por Tibiriça, á guisa de proteção e segurança ao padre Anchieta.
Escolheu, para asilo, um lugar alto, cercado de defesas naturais por todos os lados. O rio Atibaia, o córrego do Piquiri, o maciço da Pedra Grande dificultariam a aproximação dos inimigos. A fonte do Rosário fornecia água em abundância. Os alimentos encontravam-se na natureza.
O governo português queria saber as intenções de Jerônimo de Camargo. O fugitivo pretendia continuar a luta? Organizar um pequeno exército, financiado pela Espanha, para a retomada do poder? Ou apenas se dedicava, pacificamente, à tradicional produção de trigo?
À procura dessas respostas apareceu por aqui o padre licenciado Mateus Nunes de Siqueira, inquisidor. Portava uma autorização da nova Câmara de São Paulo e alguns índios ditos arredios à escravização. Porém, a realidade tornou a missão inócua. O pacífico trato com Jerônimo de Camargo resultou em negociação de paz e fornecimento mão de obra para a agricultura.
Desse acerto entre Mateus e Jerônimo resultou um pequeno núcleo de habitantes, freqüentemente visitados por aventureiros de passagem, à procura de riquezas minerais nos sertões ao norte (Minas Gerais). As andanças por estas plagas aconteceram bem antes de 1665.
Vai daí, através dos tempos, os Pires e seus descendentes afirmaram que Atibaia foi fundada pelo Padre Mateus Nunes de Siqueira, com base no documento expedido pela Câmara de São Paulo. A hegemonia política dos Camargos, no entanto, transformou Jerônimo de Camargo no fundador oficial, nada data de 24 de junho de 1665, sob proteção de São João Batista
Atibaia, entretanto, surgiu pelo concurso dos índios, dos aventureiros, do olheiro padre Mateus e do asilado Jerônimo, sem os quais a realização da obra teria sido impossível. |Na verdade, o povoado resultou da guerra entre portugueses e espanhóis, absorvida pelos Pires e Camargos.
Aliás, a discórdia atravessou os séculos, arrimando a cultura política do município até agora. O último aliado dos Pires a deter o poder em Atibaia foi Frutuoso Furquim de Campos (1770). (O filho, pároco Frutuoso Furquim (1820), provavelmente não se envolveu com política). O derradeiro dos Camargos foi o prefeito Marco Vinicio Chiochette (1962), correligionário do Zézico Alvim, descendente direto de Jerônimo de Camargo. O ex-vereador José Luís Teixeira elegeu-se em 1982. Constitui-se no último representante dos Pires.
Através dos tempos, além de Jerônimo de Camargo, muitos outros personagens escolheram Atibaia para de asilar, embora por motivos diferentes, dentre os quais: os índios fugidos; os negros quilombolas, o escritor Mário de Andrade (motivo de saúde); o intrépido chefe político Adhemar de Barros; o Lucena, integrante da resistência armada contra a ditadura e tantos outros, inclusive os milhares de migrantes da paulicéia, fugidos do estresse industrial.
Além das demais vocações (turismo, cidade dormitório etc) Atibaia, tem, pois, servido de asilo a tantos quantos a desejam como instância de salvação.

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.
Contato: gilbertosant@terra.com.br





