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27/06/2011

Os 346 anos de Atibaia

Em Atibaia, a  briga   Pires versus  Camargos durou mais de 300 anos. Tudo começou por volta de 1640, com a restauração do trono português.  Nos  60 anos anteriores,  os reis da Espanha (Felipes I, II e III)  dominaram Portugal e a colônia  Brasil. Ditaram as ordenações (leis) e a política.

 

Os Pires mantiveram-se sempre fieis   à Coroa Lusitana. Os Camargos  defendiam os interesses  espanhóis. A  resistência à reintegração dos Pires ao poder paulistano  foi liderada pelo Juiz-Ordinário  Jerônimo de Camargo.

 

Á época, as Câmaras de Vereadores  mantinham uma   estrutura   feudal. Detinham poderes judiciais, executivos e legislativos, a um só tempo, isto é, decidiam sobre todas as questões da sociedade. O vereador, investido no cargo de Juiz- Ordinário, enfeixava nas mãos  poderes  absolutos.

 

A independência portuguesa  de 1640 significava   que os Camargos,  e seus aliados, deveriam devolver o poder aos Pires.

 

Qual o quê. Ledo engano. Jerônimo de Camargo articulou um movimento de independência  de São Paulo, obviamente com viés  monárquico-filipino.   Amador Bueno, o cidadão mais rico, foi aclamado rei. Abdicou antes da posse e,  em troca,  foi perdoado pelos inimigos. 

 

Mais um movimento de libertação do jugo português acabou   derrotado. A cabeça de Jerônimo de Camargo foi colocada a prêmio. A Santa Inquisição afiou as garras. O líder   embrenhou-se mata  à  dentro, em defesa da própria vida.

 

Fugiu e instalou-se num lugar  militarmente estratégico,  cujo relevo  muito se assemelhava ao do Pátio do Colégio, escolhido  por  Tibiriça, á guisa de proteção e segurança  ao padre Anchieta.          

 

Escolheu, para asilo, um lugar alto, cercado de defesas naturais por todos os lados. O rio Atibaia, o córrego do Piquiri, o maciço da Pedra  Grande  dificultariam  a aproximação  dos inimigos. A fonte do Rosário fornecia água em abundância. Os alimentos encontravam-se na natureza.

 

O governo português queria saber as intenções de  Jerônimo de Camargo. O fugitivo pretendia continuar a  luta? Organizar um pequeno exército, financiado pela Espanha, para a retomada do poder? Ou apenas se dedicava, pacificamente, à  tradicional  produção de trigo?

 

À procura dessas respostas apareceu por aqui  o  padre licenciado Mateus Nunes de Siqueira, inquisidor.  Portava uma autorização da nova Câmara de São Paulo e alguns índios ditos arredios  à escravização.  Porém, a realidade tornou  a missão inócua. O pacífico trato com Jerônimo de Camargo  resultou em negociação de paz e  fornecimento  mão de obra para a agricultura.

 

Desse acerto entre Mateus e   Jerônimo resultou um pequeno núcleo  de habitantes, freqüentemente   visitados  por  aventureiros  de passagem,  à procura de  riquezas minerais nos sertões  ao norte (Minas Gerais). As andanças por estas plagas aconteceram bem antes de 1665.

 

Vai daí, através dos tempos, os Pires e seus descendentes afirmaram que Atibaia foi fundada pelo Padre Mateus Nunes de Siqueira, com base no documento expedido pela Câmara de São Paulo. A hegemonia política dos Camargos, no entanto, transformou Jerônimo de Camargo no fundador oficial, nada data de 24 de junho de 1665, sob proteção de São João Batista

 

Atibaia, entretanto,  surgiu  pelo concurso dos índios, dos  aventureiros,  do olheiro padre Mateus e do asilado Jerônimo, sem os quais a  realização da obra teria sido impossível. |Na verdade, o povoado resultou  da guerra entre portugueses e espanhóis, absorvida  pelos   Pires e Camargos.

 

Aliás, a  discórdia atravessou os séculos, arrimando  a cultura  política do município até agora. O último aliado dos Pires a deter o  poder em Atibaia foi Frutuoso Furquim de Campos (1770).  (O filho, pároco Frutuoso Furquim (1820), provavelmente não  se envolveu com política).  O derradeiro dos Camargos  foi o prefeito Marco Vinicio Chiochette (1962),  correligionário  do Zézico Alvim,  descendente direto de Jerônimo de Camargo. O ex-vereador José Luís Teixeira elegeu-se em 1982. Constitui-se no  último representante dos Pires.    
          

Através dos tempos, além de Jerônimo de Camargo, muitos outros personagens escolheram Atibaia para de asilar, embora por motivos diferentes, dentre os quais: os índios fugidos; os negros  quilombolas,  o escritor Mário de Andrade (motivo de saúde); o  intrépido chefe político Adhemar de  Barros; o Lucena, integrante  da resistência armada  contra a ditadura e tantos outros,  inclusive  os milhares de  migrantes da paulicéia,  fugidos do  estresse industrial.    

 

Além das demais vocações (turismo, cidade dormitório etc) Atibaia, tem, pois, servido de asilo  a tantos quantos a desejam  como instância de salvação.  

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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