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15/05/2017

A crise educacional atibaiense ou a inseparabilidade da educação-saúde.

 

 

 

Nestes mais de trezentos e cinquenta anos os atibaianos padeceram de sucessivas crises. A primeira ocorreu logo depois de 1665. O fundador Jerônimo de Camargo, pertencente a uma tradicional família paulistana produtora de trigo, abandonou as terras de Caetetuba, Maracanã e adjacências, expulso pela praga que dizimou os trigais. Bateu em retirada rumo a Jundiaí-SP, a procura de novas aragens, onde morreu logo depois. 


Melhor sorte não socorreu a plantação de algodão, atacada desgraçadamente por fungos, em diferentes momentos da agricultura provinciana.


O ciclo cafeeiro paulista desde o Vale do Paraíba ocupou toda região oeste (Ribeirão Preto), desprezando Atibaia devido ao solo impróprio para a cultura. 


A repetição sistemática de doenças que infectavam os produtos agrícolas e o desajeito da terra, sugeriram esforços em atividades diferentes do plantio e brotação. Boa parte dos habitantes dedicou-se ao trato da tropa de burro e cavalo; e do transporte de mercadorias por caminhos de matas e sertões, pelos lados do Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e o porto de Santos-SP.


Os tropeiros circularam mercadorias em idas e vindas por vários séculos, até que uma nova crise quebrou o bolso dos atibaienses. Em 1880 já trafegavam no Brasil carros e caminhões construídos para estradas de chão batido a pedregulho. No horizonte mais um desastre que abalou o ganha-pão atibaiense.

Renascem as esperanças. 


A Fábrica de Tecidos São João, depois Companhia Têxtil Brasileira – CTB, operou plenamente de 1909 a 1950. Uma única grande empresa ocupou todo o espaço da industrialização. Manteve um pico de mil postos de trabalho para uma população urbana de vinte mil habitantes. Toda família tinha alguém trabalhando na fiação e tecelagem. A agonia do final da produção mais uma vez estremeceu os pilares da sobrevivência. 


E assim se sucedeu. No decorrer dos séculos, a cada quebra econômica, a população empobrecia cada vez mais. A renda per capita fez-se sempre inferior ao salário mínimo.


A região, dentre outras cinco do estado, apresentava situação de pobreza extrema, com baixos índices de desenvolvimento econômico e humano. As autoridades sensibilizaram-se. Na tentativa de reverter o trágico quadro, o governador Lucas Nogueira Garcez, professor da Escola Politécnica da USP, em 1951 confiou ao ex-aluno Walter Engrácia de Oliveira o cargo de prefeito de Atibaia. Tarefa árdua. 


O prefeito Walter recebeu verbas especiais para instalação dos serviços básicos de educação- saúde-saneamento básico, extremamente precarizados. Alcançou sucesso. 


Porém, nos últimos setenta anos a população do município quase decuplicou e os serviços essenciais continuaram rasos e insuficientes, gerando demandas típicas das paragens mais atrasadas do país.

Por isso caberia e cabe aos nossos prefeitos passados, presente e futuros estabelecer rígidas políticas públicas de educação-saúde para zerar o grave déficit municipal. A realidade mostra que as prioridades, ao contrário, sempre recaem sobre as obras viárias e maquiagens urbanas. 


Para piorar a ladainha, os políticos brasileiros ensinaram o povo julgar os executivos, não pelos serviços prestados de bem-estar social, mas, pelas obras duvidosas que ergue, como se as eleições pressupusessem uma acirrada disputa entre mestres de obras.


Na verdade é absoluta perda de tempo e recursos colocar um aluno desnutrido numa sala de aula. O aproveitamento será nulo, obviamente. Aliás, as crianças nascidas de mãe subnutrida, se permanecerem mal alimentadas até o segundo ano de vida, tornam-se irrecuperáveis. Inflam a taxa de mortalidade infantil. Tornam-se candidatas à evasão e reprovação escolar. Engrossam a taxa de desemprego. Fazem as filas dos hospitais públicos intermináveis. Prestam-se à manipulação dos traficantes de droga. Transformam-se em tipos populares dependentes da caridade pública.


Por isso, a ação educacional não pode ser dissociada das preocupações com a saúde da garotada discente. 

A intervenção do paço acontece através das escolas destinadas a crianças de seis meses a três anos. A prática tem demonstrado uma recuperação total e integração plena à sociedade.

 

Daí a importância da merenda escolar na aprendizagem. Atibaia tem zona rural hortifrutigranjeira. Desnecessária e temerosa a compra de alimentos na prateleira das grandes empresas internacionais. Os produtos industrializados quase sempre contém grande quantidade de conservantes químicos e recheios tóxicos.


Os debates entre candidatos a prefeito e vereadores de 2016 mostraram que os postulantes, perguntados sobre educação-saúde, responderam apenas com números estatísticos, elaborados, muitas vezes, por subordinados despreparados e afeitos às questões administrativas. 


Ninguém enfrentou a questão pedagógica. Nem a condição nutricional dos alunos. As políticas públicas não se preocupam com a educação-saúde, em favor dos interesses do mercado, incluídas as privatizações. 


 As obras tornam-se mais importantes que os serviços destinados a superar as angústias povo.

Aliás, nacionalmente a educação-saúde nunca foi pensada pelos governos através da ótica dos educadores. No século 20 as entidades privadas, ligadas às necessidades industriais, ditaram os rumos da pedagogia dirigida às salas de aula. Até a disciplina e rigores se parecem com a do chão da fábrica.





Neste início de século 21 o mundo financeirizou-se. A educação-saúde continua menos importante ainda. A escola oferece apenas e tão somente o conhecimento necessário ao manuseio da parafernália eletrônica. Prepara o jovem para o consumo e o endividamento por juros bancários. 


Essa é a ideologia das reformas propostas pelo governo Temer. Uma escola destinada aos ricos, cada vez em menor número. Ensina-se a pensar através da Filosofia, Sociologia e História. Uma escola bem diferente destinada a grande maioria pobre, com preocupações meramente técnica. 


É proibido ter opinião própria. Transforma o cidadão num robô, comandado por ordens políticas e partidárias hegemônicas, transmitidas, lembradas e relembradas, vinte e quatro horas por dia, pela telinha digital editada pela grande mídia.

Vivemos um tempo com ares de fim do mundo.

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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