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11/08/2011

A visita do senhor resistência

O José Júlio desceu do carro  e se  dirigiu  ao  balcão dos turistas. Sentou numa poltrona ao lado e aguardou a vez.

 

- Posso ajudar?

 

A jovem recepcionista parecia disposta e paciente. Afinal,  os jovens jamais entenderão  a lógica dos idosos. As  nuances existenciais diferem. As reminiscências    transformam-se rapidamente em história  grafada  nos  livros didáticos. Lembra   avaliação que reprova.

 

-Sim.

 

O José Júlio   exibia  ralos cabelos brancos, óculos desajeitados  e o desejo   de  informações.  Sequioso, transbordava de  ansiedade. A luta fazia-se  contra  a   emoção.

 

A Vanessa,  assim  fotografada e subscrita  no crachá, empunhava   grande quantidade de  material de propaganda. Não queria decepcionar, apesar de pressentir a parada dura.        

 

- Que  tipo de passeio?

 

- Bem... mudei de Atibaia há  muito tempo.  Estou  meio perdido. As ruas se  multiplicaram. Tudo se resumia  entre a igreja da Matriz e a fábrica de tecidos. Quero  rever alguns pontos de valer a pena,   obrigatórios.  

  

- Quais são?

 

- Pretendo começar  pelo Pátio das Diretas.

 

 - Não conheço.

 

- Ainda existe,  com certeza. Um marco histórico não se varre pra debaixo do tapete.  É onde se realizavam dos comícios pelas Diretas-já. Os políticos em geral bradavam contra a ditadura. Pediam eleições diretas para presidente da República. A multidão aplaudia.

 

- Sinto muito,  senhor.   Mais alguma coisa?

 

- Sim.  O colégio Major e o lago da Paz. Meu filho Edmauro  Gopfert estudou ali. Participou da resistência  contra o governo militar.  Preso, acabou trocado pelo embaixador americano  Um  herói. E, no lago da Paz realizou-se o  “Festival Internacional da Canção Pela  Paz”. Um  grito de democracia no deserto da liberdade.

 

- A escola   é logo ali. O lago  com esse nome desconheço, respondeu Vanessa. Sequer perguntou pela sorte do  garoto. Desse trela ao velho,  saberia que o jovem perseguido   retornou  ao Brasil, depois da   Lei da Anistia.

 

- E as ruas  Wladimir Herzog e Rubens Paiva, presos e  assassinados pelo regime de exceção?

 

Diante da passividade  da Vanessa, José Júlio  tomou rumo incerto. Desistiu de perguntar sobre a antiga agência do Banco do Brasil, onde trabalhara  ao fio dos anos.

 

 -  A    alienação de Vanessa  anima  as ditaduras. A culpa cabe como uma luva nos professores omissos e nos governos submissos,   comentou  com  os seus botões... Partiu como chegou.   Tudo haveria de mudar.
 

 

(Nota do articulista. O texto contém  apenas dez por cento de ficção

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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