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05/12/2017

O Grupo Escolar ?José Alvim? : um patrimônio republicano.

 

 

Nesta semana este articulista e Araceles Prado Stamatiu, a convite de Juliana Gobbe do Coletivo Abraço Cultural, debateram com estudantes e professores do Grupo Escolar José Alvim questões ligadas à preservação do patrimônio histórico atibaiano. Apresentaram também uma retrospectiva histórica, desde as causas remotas da fundação da vila Sanjoanense até os dias atuais. A seguir um pouco da narrativa sobre as origens dessa escola pública.


Em Atibaia, a história da República, em que pese a adesão posterior à proclamação, confunde-se com a da família Alvim. Atribui-se ao José Alvim de Campos Bueno, pai do Major Juvenal Alvim a implantação das políticas públicas ditadas pelos novos tempos. 


O historiador atibaiense José Luiz Teixeira contou-me por via eletrônica que “ Meu avô materno Leopoldo Soares do Amaral , intendente municipal na época, foi um dos principais responsáveis pela ideia de construção de uma escola pública em Atibaia. Era amigo íntimo do major sobre o qual tinha uma relativa influência. A denominação “José Alvim” do Grupo Escolar, homenagem ao pai do Major Juvenal Alvim foi iniciativa dele Leopoldo. Abraços”. 


Os prédios dos grupos escolares espalharam-se pelo Estado de São Paulo. Por oportuno transcrevo o texto de Renato Zanoni, in Atibaia no Século XX, página 31: “ 1905. Grupo Escolar. Por decreto do Governo do Estado, em data de 9 de janeiro, foram anexadas a primeira, a segunda e terceira escolas da cidade. Para esse estabelecimento foram nomeados os seguintes professores que regiam aquelas escolas: Francisco Napoleão Maia, José Armando, João Benedicto de Sales Bastos e as Sras. professoras, Benedita Vieira, Risoleta Ceslau de Moura e Elvira Pinto de Carvalho”.

 

As construções para instalar a nova escola exigia dimensões avantajadas e custos elevados. Os políticos assumiram a empreitada, liderados por José Alvim de Campos Bueno, então chefe local do Partido Republicano Paulista. Nhô Bim, como era conhecido, descendeu em linha reta de Jerônimo de Camargo, fundador de Atibaia. Faleceu em abril de 1902 antes do término das obras. Os filhos ( major Juvenal Alvim) concluíram o prédio do “Grupo Escolar José Alvim”, criado por ato do governo do Estado de 15 de março de 1906.


Para cobrir os gastos do empreendimento instituiu-se o “imposto do fogão”, cobrado às famílias com base na quantidade de unidades em uso, na cidade ou zona rural.


Os imigrantes, principalmente os italianos, devido a experiências traumatizantes anteriores, de arbítrio, vivenciadas na Europa, se insurgiram contra o que pronunciavam de “imposta sul fogone” (Stufa Fiscale). Até contrataram uma advogado em Taubaté-SP, o Dr. Nogueira, de lendária memória.


José Luiz Teixeira me contou via Internet que “ O Nogueirinha foi expulso de Atibaia a toque de caixa , por uma multidão na época, segundo meu pai umas trezentas pessoas. Foi levado até a estação ferroviária de Caetetuba e lá foi despachado. Me pai se fosse vivo hoje (2017) estaria com 121 anos de idade.”

 

Atribui-se ao Nogueirinha a praga lançada da janela do trem, considerada bem sucedida: “ Enquanto houver uma “coronel” mandando aqui, esta cidade não vai prá frente”. Enterrou o sapo.


Pois bem, a inauguração do prédio do Grupo Escolar aconteceu no dia 17 de junho de 1905. Desfilaram meninas de roupa e boné brancos. Os meninos integravam o batalhão de soldadinhos, inspirado no governo militar. Não faltaram os discursos das autoridades, dos intelectuais e do representante de Jorge Tibiriça, presidente do estado (patrono do grupo escolar de Bragança Paulista -SP). Nos intervalos a brilhante apresentação da banda de música atibaiense.


Apesar da reforma educacional introduzida pelo novo regime a taxa de analfabetismo nem mexeu do lugar. Estima-se que mais da metade dos paulistas não soubesse ler nem escrever. A grande maioria era de “pouca leitura” na expressão da época. Nas periferias pobres e nas fazendolas quem soubesse um pouquinho passava as letras adiante. Os garranchos valiam assinatura. Aprendia-se soma e subtração (dita conta de mais e de menos) para não ser “ludibriado” no troco pelos armazéns de secos e molhados. As moedas e notas eram transportadas num lenço amarrado por nós nas pontas. Desconfiava-se de tudo. Comprava-se costumeiramente arroz, feijão, farinha, linguiça e aguardente adocicado. 


Em resumo, num contexto brasileiro liberal-positivista, ao gosto das elites formadas na Europa, a reforma republicana apenas atendeu as necessidades da indústria nascente. Não desenvolveu necessariamente a educação como um todo.


Em 1970 a evasão escolar alcançava 50% (cinquenta por cento) dos alunos regularmente matriculados nas escolas públicas brasileiras. 


Como explicar esse insistente quadro negro da Educação? Demerval Saviani ensina que (...) Isso porque o grupo ou classe que detém maior força se converte em dominante se apropriando dos resultados da produção social, tendendo em consequência, relegar os demais à condição de marginalizados (...). Escola e Democracia, 42ª edição, Autores Associados, Campinas 2012, pág. 04. 


No mais, o laicismo republicano exigia um cemitério municipal. A pretexto de embelezar a cidade o vereador e depois intendente major Juvenal Alvim, com a ajuda do Juca Peçanha e do Adolfo André, removeu os precários jazigos da Irmandade do Rosário e do Santíssimo Sacramento para local distante, depois dos limites urbanos. 


A nova necrópole pública evocou São João Batista, ignorando os esforços laicos dos bacharéis da República. No frontispício a inscrição latina SIC TRANSIT GLORIA MUNDI (Assim passa a gloria do mundo). A professora Teresa Marcílio do Grupo Escolar traduzia a frase de forma a se entender: “Aqui terminam as glórias do mundo”. De nada valem a beleza e a riqueza.

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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