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10/01/2018

A rua das duas igrejas

 

As cidades de Atibaia e São Paulo dividiram por longo tempo uma história em comum. A precipitada emancipação atibaiana em 1769, aconteceu precipitadamente por obra e graça da centenária disputa entre Pires e Camargos. 

O primeiro traçado urbano deste antigo bairro paulistano às margens do rio Atibaia, denominava-se Rua Direita. Indago: por que os moradores daqui deram-lhe idêntico batismo se lá na capital já existia uma outra de igual nomenclatura?

Vejamos. Existem várias versões a respeito da origem desse nome. O professor Ataliba Nogueira, professor da disciplina Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, afirmava em aula que a designação “Direita” advinha do percurso em linha direta e reta da Igreja à fonte, de onde os moradores baldeavam a água. Na capital, exemplificava, correspondia à trajetória da Praça da Sé até o rio Anhangabaú (canalizado) ou a bica da Ladeira da Memória.

 Outros estudos (Arquivo Histórico de São Paulo) dão conta que a rua Direita, já no século XVI, ligava o centro de São Paulo à aldeia indígena de Pinheiros. Ou que o nome Direita, de tradição portuguesa, significa a caminhada de uma igreja até a outra, à direita da porta central do templo.

Claro, que os fatos e circunstâncias se repetiram em Atibaia. A nossa Rua Direita era o caminho a percorrer da igreja de São João Batista até a fonte do Rosário. Ligava as igrejas da Matriz à do Rosário. Aliás, quase todas as cidades do Brasil tiveram ou têm uma rua denominada Direita. A religião e a água sempre foram essenciais à vida em sociedade, também no Brasil e em Portugal.

A Rua Direita de São Paulo mudou diversas vezes de nome (Dom Pedro de Alcântara em razão do Império e Floriano Peixoto quando da proclamação da República) em face dos modismos políticos. Porém, o nome original sempre acabou restaurado.

 

A Rua Direita atibaiense, existente desde a fundação do município em 1665, mudou diversas vezes de nome, por iniciativa popular ou oficial: de Cima, da Consolação, José Lucas, João Pessoa e atualmente é conhecida como rua das Duas Igrejas. Lembro-me que até meados do século 20, os cidadãos preferiam a denominação de rua Direita.

O progresso talhou uma nova rua paralela, acompanhando o declive natural no rumo do rio Atibaia. Surge então a rua de Baixo, hoje José Alvim. Em oposição, nada mais natural que a rua Direita ganhasse o apelido de Rua de Cima. 

A Rua da Consolação brotou da fé religiosa. Era costume colocar-se na entrada das moradias uma imagem de devoção do proprietário. Há pouco mais de duzentos anos (1886), uma residência na esquina da Rua José Bim com a rua Direita introduziu uma imagem de Nossa Senhora da Consolação. Os milagres que se lhe atribuíram correu o mundo das cercanias. Posteriormente a imagem da santa foi removida e se encontra em lugar não sabido, apesar das constantes indagações e procuras. Se alguém souber do paradeiro, por favor, entre em contato conosco. 

O José Lucas foi um cidadão investido de legítimo espírito público. Viveu de 1807 a 1870. Liderou a edificação do Fórum e Cadeia (museu) e a reforma da igreja da Matriz, que se encontrava inativa devido a estrutura física abalada. Fez aprovar na Câmara Municipal uma contribuição compulsória para aplicação na obra, que obrigava inclusive aos escravos e aos cidadãos menores de idade. 

Por indicação do vereador Olímpio da Paixão a Câmara Municipal de Atibaia, por motivo de relevantes serviços, deu-se o nome de José Lucas à Rua Direita.

O assassinato do político paraibano João Pessoa foi um dos pretextos para a vitoriosa revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas. O caldinho promulgou as leis trabalhistas e enfrentou o “coronelismo”. Atibaia, jungida pelo novo governo tratou logo de manifestar apoio. A rua principal José Lucas passou a denominar-se João Pessoa. A adesão não durou muito. Em 1936 o prefeito João Batista Conti promulgou a Lei número 267, assim redigida no artigo 1º - “A atual rua João Pessoa volta a denominar-se rua José Lucas”. Em boa hora. Em 1937 aconteceu o golpe político que instalou o Estado Novo. Surgia mais uma sangrenta ditadura a fazer chorar a História do Brasil. 

Neste início de século 21, o povo, orientado novamente pelos templos da cidade, batizou-a de Rua das Duas Igrejas. Seja lá o nome que se dê, dela já se serviu a população durante três séculos e meio. Encontra-se ora lavrada em chão bruto, ora calçada com paralelepípedos, ora asfaltada, ora com o piso surrealista que se mantém até a presente data. 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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