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14/03/2018

A eterna luta pela emancipação feminina

 

DIA DA MULHER - 8 de março. Homenagem às 130 mulheres que foram queimadas vivas no incêndio de uma tecelagem de Nova Iorque (USA), em 1857. Reivindicavam a redução da jornada de trabalho e melhores salários para si e para os homens.

 

No Brasil, as mulheres sempre amargaram uma vida de opressão, violência e obediência aos caprichos masculinos, com variações de intensidade de tempo e espaço. As de conduta independente pagaram caro a rebeldia. 

Os imigrantes mantinham um outro tipo de relacionamento homem- mulher. A cidade do Rio de Janeiro, capital da República, enchia-se de ares parisienses. A libertação dos escravos em 1888 ajudou a reduzir os limites do ranço oligárquico. A industrialização tornara-se uma grande aliada dos anseios libertários. Tudo conspirava em prol da emancipação feminina.

O mundo editorial não perdeu tempo. Lançou a revista “Fon-Fon” (O nome lembrava a buzina do automóvel) em âmbito nacional, publicada entre 1907 e 1945. A pretexto de mostrar as tendências da moda europeia revelava para as brasileiras o viver moderno e, principalmente, as mudanças sociais em curso. As notícias que poderiam demorar anos agora chegavam rapidamente aos salões elegantes e nos bairros periféricos.

Daí, a vida em comum de homens e mulheres passou por um processo de revisão. O modelo tradicional transforma-se. As mulheres saem às ruas sozinhas, praticam esportes, fazem compras, frequentam bailes. Interessam-se por carreiras públicas. Dirigem automóveis. Ingressam nas fábricas e lambuzam de graxa a roupa e a face. 

A moda feminina se livra dos espartilhos e mostra uma silhueta arredondada (gordinha). As saias já não escondiam às pernas e o colo. Os vestidos eram leves, curtos, elegantes que mostravam os braços e as costas. Os tornozelos frequentavam os sonhos masculinos. As mulheres dançavam o “Charleston” com desenvoltura. Usavam chapéu cobrindo o rosto à moda odalisca. Predominava na maquilagem o batom carmim e o destaque dos lábios, olhos e sobrancelhas. Os cabelos eram curtíssimos no estilo “à la garçon”. Notava-se forte influência das atrizes de Hollywood, principalmente da sensual Josephine Baker.

Em 1927 a moda talhou lateralmente as saias para mostrar a liga que prendia as meias de seda na altura das coxas. O cinema mostrava danças de cabaré. Usava-se boinas e na boca uma flor presa por uma leve mordida no cabo. Um escândalo. Porém, apesar do arrojo, não se cogitou o uso de trajes tipicamente masculinos. O contexto produziu a compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935). 

Claro, a resistência “machista” logo se manifestou. O espaço apropriado pelos homens fora invadido. Surge a polêmica sobre a igualdade dos sexos. Exigia-se a regressão da mulher ao status anterior, isto é, ao reino do lar, na condição de mãe e esposa amantíssima (Bela, recatada e do lar). As solteiras seriam eternamente as mademoiselles melindrosas. As casadas eram as madames. Ao cumprimentá-las os homens reverenciavam beijando o dorso da mão, movimento sincronizado com o manejo do chapéu para o alto. 

Algumas mulheres cederam à imposição masculina. Outras não. A luta feminina continua até os dias de hoje. As novelas televisas que cobrem 100% do território nacional, em várias edições diárias, pregam a emancipação da mulher tal qual a revista “Fon-Fon”.. A televisão induz às mulheres a não ter filhos e a se dedicarem inteiramente ao mercado de trabalho. Porém, não discute toda sorte de discriminação, inclusive o salário menor que percebem em relação ao homem. 

Os fatos ocorridos há cem anos, obviamente, repercutiram em Atibaia, guardadas as peculiaridades e o provincianismo do município. A revista “Fon-Fon” circulava livremente. O cinema mexeu com os costumes. Muitos tabus foram quebrados e o universo exclusivamente masculino cedeu espaço à emancipação feminina. O avanço da industrialização local também conspirou a favor. O rapazes agora organizavam soirrés (reuniões sociais noturnas) nas casas das famílias mais importantes sem se importar com o raiar do dia. A participação das jovens era intensa, apesar de sempre acompanhadas dos pais ou responsáveis. 

 As meninas abastadas não mais se dedicam exclusivamente aos trabalhos manuais, à música (piano, canto) e aprendem português, línguas estrangeiras, matemática e história. O Grupo Escolar José Alvim oferece educação pública para ambos os sexos de condições econômicas diversas. As professoras efetivas nem sempre davam conta da demanda escolar. A direção valia-se muitas vezes de mulheres leigas para ensinar, mediante prova de suficiência.

 As moças transgressoras da “moral e os bons costumes” eram denunciadas à sociedade atibaiense através panfletos lançados nas sarjetas, na calada da noite.

 No início dos anos cinquenta morreu um senhor de muita idade, (Constante marido da dona Eletra) residente na rua Benedito de Almeida Bueno. Deixou inúmeras caixas contendo papéis diversos. Várias delas colecionavam panfletos colhidos na ruas. Um deles recriminava duramente as mulheres de Atibaia devido ao uso de maquilagem.

 Um cartãozinho de visita continha dizeres espalhados pelas pontas: dobrando o canto da direita será o sim; o canto esquerdo será o não. Devolvendo o cartão intacto dará uma esperança. No centro a declaração de amor em caixa alta: POR TI MINHA ALMA SOFFRE. E FELIZ SERIA SE V.Ex. ACCEITASSE OS MEUS PROTESTOS DE AMOR.

 

 A virgindade, guardada até o casamento de papel passado em cartório, tornou-se uma exigência afeita aos preconceitos da classe média. Manteve-se rígida até os anos sessenta do vinte. As famílias burguesas não se davam conta devido aos casamentos quase sempre por conveniência. A separação do casal não se fazia traumática. As famílias reduziram-se de dez para cinco filhos, ou menos. 

 

 As mulheres pobres eram operárias da fábrica de tecidos. Trabalhavam e ajudavam no sustento da família. O fato lhes antecipou a emancipação social. A virgindade não era condição para o casamento. 

A mulher paulista símbolo foi sem dúvida a Pagu (Patrícia Rehder Galvão). Escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista, nasceu em São João da Boa Vista - SP. Participou da Semana da Arte Moderna de 1922 com apenas 10 anos de idade. Politizada, sensível e humana, tornou-se a primeira mulher presa por motivos políticos. 

 As da raça negra, feitas oficialmente livres em 1888, não tiveram qualquer suporte governamental, sequer com relação aos filhos menores. Amargaram a saga do abandono em cabanas improvisadas à beira dos rios e córregos. Algumas delas dominavam os afazeres domésticos e foram mantidas a serviço na casa do agora patrão, sem qualquer direito trabalhista, nem aqueles já concedidos aos imigrantes. As quituteiras safavam-se vendendo comida nas ruas e praças. Viveram e vivem num país que não lhes permite o, acesso a uma vida isonômica com as nascidas em branco marfim.

 

Constata-se neste início do século 21 que a luta continua firma e forte, enquanto o mundo se propõe ao retrocesso social, político e econômico. A violência é aplaudida pelos conservadores. A fervura ocupou as ruas. A libertação da mulher significa a emancipação de todos. O medíocre neoliberalismo (globalização) reage com mazelas econômicas, politicas e sociais.

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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