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09/08/2018

Carta da Alemanha

 



O assunto que me traz é a defesa do patrimônio histórico e cultural de Atibaia. Durante mais de três séculos os moradores de Atibaia puseram-se às obras e construíram um centro urbano. 

Índios, negros, europeus misturam a língua, os costumes, as crenças, as angústias, as artes, o amor, a pobreza e construíram uma cultura de tradições e valores populares, sobremaneira ricos e variados..

Hoje nos aproximamos da extinção generalizada de tudo, inclusive do meio ambiente, graças a ação do progresso predatório e insensibilidade dos governos instalados no paço Jerônimo de Camargo. 

Revirando o arquivo das indignações, deparei-me com uma matéria que publiquei há dez anos, com o titulo de Carta da Alemanha. Trata-se de correspondência remetida por um antigo morador de Atibaia, depois de cinquenta e tantos anos de ausência. É patética! Peço licença para transcrevê-la, com anotações, que inseri à grafite, ao longo das muitas releituras e lágrimas:

“Prezados senhores: Nasci em Atibaia, onde morei até 1947. Graças aos préstimos de Helen e Alberto Mohr, residentes numa bonita chácara nas vizinhanças da fábrica de tecidos, aquela instalada em dois prédios com tijolos à vista (Cia. Têxtil Brasileira – CTB, rua João Pires, desativada e demolida), consegui mudar-me para a Alemanha. A sobrevivência nesta parte do mundo só foi possível com o apoio dos parentes do casal. Instalei-me em Wolgast, cidade próxima ao mar Báltico”.

“Fabrico e vendo produtos alimentícios derivados do milho e da cana de açúcar, isto é, curau, canjica, biju, rapadura, melado, garapa e ........(indicifrável). A atividade é modesta, porém suficiente para os gastos.”

“Com medo de não me adaptar aos modos estrangeiros, trouxe comigo um pouco de comida a que estava acostumado. Acabei distribuindo tudo aos hospedeiros. O sucesso foi incrível. Descobri o negócio, estabilizei-me e contraí matrimônio com a Frida. É o apelido da minha mulher amada.”.

“Recentemente, depois da reunificação da Alemanha (queda do Muro de Berlim), a nossa filha mais velha, Ilona, teve a sorte de ganhar uma viagem para o Rio de Janeiro. – Brasil, num disputado concurso de televisão. Pedi-lhe que trouxesse algumas lembranças de Atibaia para matar a saudade de tantos anos. Veio às minhas mãos um artigo sobre o extinto jornal “A Gazeta de Atibaia”. Chorei. Eu saia às ruas vendendo aos leitores”.

“Aliás, lá em casa éramos todos eleitores da UDN (União Democrática Nacional – partido político proscrito). Deixei Atibaia triste com a vitória do PSP (Partido Social Progressista, do Sr. Adhemar de Barros ). Eleito governador, nomeou, imagine, o Dr. Osvald prefeito de Atibaia (Osvaldo Urioste). O homem não tinha visão do futuro. O nosso partido queria comprar aqui na Alemanha mais uma turbina para a usina hidroelétrica aí dos Pires (fazenda dos Pires, cedida parcialmente ao município para a barragem das águas do rio Atibaia e instalação da casa das máquinas. A usina forneceu energia elétrica ao município até os anos sessenta do século XX). O povo ia ter energia à vontade. Os inimigos deram o contra. Espero que a UDN tenha recolocado tudo nos devidos lugares. Além do mais, queriam puxar a água do rio Atibaia para gente beber. Por que desprezar a da serra? (fazenda Grota Funda – bairro do Itapetinga – SAAE, que abastecia toda a cidade)”.

“Estou mandando um abraço para a turma do Hotel Municipal (Praça da Matriz – demolido), em especial para o sr. Garcia. Se algum dia me for concedida a honra de voltar, quero rever o Cine República (calçadão-demolido), visitar o ginásio do sr. Mêmolo (até 1952 - hoje colégio Major), que espero tenha conseguido terminar a obra, bem como cumprimentar o nosso chefe (político) Bento Escobar (farmacêutico falecido) e brincar nos corsos carnavalescos (em desuso)”.

“Imagino que Atibaia cresceu. Informaram-me que a estrada para São :Paulo foi asfaltada ( rodovia Fernão Dias). E o loteamento da parte baixa , do sr. Clóvis Soares (Alvinópolis) foi adiante? O povo ainda se reúne no Clube de Campo para nadar na piscina do lago (demolida)? Conte-me por favor, dos comícios dos candidatos. Obrigado. Aceitem um forte abraço do Pedro ou Saracura, como me chamavam na infância. Adeus! “

O missivista deixou a cidade no início da grande demolição da vida. A Guisa de resposta ao Pedro ou Saracura poderíamos informar as agruras de um município arrasado sob todos os aspectos e bem perto da desertificação. Quem se habilita? (republicação).

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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