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20/09/2011

A urbanização da praça da matriz

O marco zero  da história de Atibaia tem  uma vida de muitos séculos.    Jerônimo de Camargo, em 1665,   escolheu o alto da colina  para  instalar um  lugarejo   surgido  da vontade  e precisão dos desbravadores. O Padre licenciado Mateus Nunes de Siqueira, pouco depois,    disse a  missa e assentou dezenas de  índios aprisionados,  com a devida  permissão  da  Câmara de São Paulo.

 

A  praça, através dos tempos, tornou-se o ponto  de todas as  comemorações sociais e políticas,  inclusive  as de grandeza nacional. O povo  ali acorreu   em razão  da  proclamação da Independência,  da libertação dos escravos e o advento da República.  A partir de 1.770, com a decretação da autonomia atibaiense,  o logradouro   festejou as próprias  efemérides.
 

O largo sempre se manteve terreiro de chão batido,  com   um  discreto  coreto  no centro. Espaço totalmente  livre ao povo, máxime para se  ouvir a banda  repicar   dobrados  da lavra  dos maestros paroquianos.

 

Na década de quarenta do século XX,   ergueu-se ali  um  imponente monumento  em homenagem ao líder  Major Juvenal Alvim, descendente direto de Jerônimo de Camargo.

 

Depois,  quase todos os prefeitos da urbe modificaram radicalmente  a arquitetura  ambiente.  As escavações  não deram  em ouro, como suspeitavam as  línguas oposicionistas.

 

Nesse espaço,  agora um pouco apertado, os políticos  armavam  comícios populares,  principalmente após a ditadura Vargas e o  Estado Novo. 
Indiferentes  aos caprichos dos  burgomestres,  os   moços  no sentido horário e as moças no contrário,  percorriam quilômetros,  no mesmo quadrado,  a procura de um bom flerte.  Era  o memorável  “ footing”, de tantos  suspiros e decepções.

 

Festejava-se o padroeiro São João, com os folguedos  e danças de praxe. Não podia faltar  o quentão, o  pau-de-sebo e a quermesse  do padre.

 

 

Existe um estudo acadêmico  elaborado na  década de setenta,    sugerindo a transformação de todas as ruas do centro velho,  num  amplo lugar só para pedestres,   com  o objetivo de preservar a qualidade de vida dos moradores.  O  prefeito da época  ensaiou o “calçadão”   num    pequeno trecho da rua José Alvim, sem sucesso.  Marchas e contramarchas de interesses, os  veículos continuam circulando livremente, quebrando a lógica urbanística.

 

Na década de oitenta,  a cidade passou por um processo de descentralização , dando origem ao eixo comercial da   avenida governador Lucas Nogueira Garcês. A   rodovia Fernão Dias, agora duplicada,  provocou  um assustador crescimento demográfico, transformando  o leito  carroçável   da antiga estrada São Paulo-Bragança Paulista (SP-8) num verdadeiro “ boulevard” .

 

No início deste  século, o largo da Matriz  recuperou o prestígio e as festas voltaram. Porém,   constatou-se que  não  havia espaço  nenhum para tanta gente.  O deslocamento das  barracas   para a  rua José Lucas (das duas igrejas) sequer  minorou o  problema.

 

Neste início do século XXI pretende-se   devolver a praça e o espaço  ao povo,   em nome de uma tradição de   300 anos,  transparece uma atitude    bastante  razoável.  Surgiram críticas. Entretanto, o  olhar do urbanista é , quase sempre, oposto  ao  do cidadão  motorizado. As soluções  coletivas sempre conflitam  com  interesses individuais dos automóveis.

 

A retirada do asfalto  e o estreitamento da rua José Lucas (das duas igrejas) acontece em  boa hora. A preferência aos pedestres idem.  Faltou apenas um pouco de bom gosto na decoração.

 

Porém, ainda  resta o  desconsolo de saber que Atibaia há muito  ostenta a fama de  única cidade do Brasil  com  “calçadão que passa carro”. Esperamos que   proeza  se resolva e jamais  dite  moda alhures.    

 

 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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