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10/01/2019

Cine It, um novo jeito de governar.

 

Embora singelos, logo no início de 1950 aconteceram diversos fatos que marcaram a vida atibaiana. A inauguração do Cine Itá, abreviação de Itapetinga, nome escolhido por votação popular (a cédula era um recorte do jornal A Gazeta de Atibaia), não acontecia nunca. Marcou-se e remarcou-se a data inúmeras vezes. A ansiedade da população atingiu limites insuportáveis. O cinema República já não oferecia conforto. Boatos alimentavam o descrédito. Desconsolo total. Enfim marcaram a estreia da nova casa cinematográfica: 1º de abril. Dia da mentira. Ninguém acreditou. Porém, aconteceu.

Sabe-se que o prédio Clube Recreativo Atibaiano, no Largo da Matriz, frequentado pela elite, acabou interditado pelas autoridades pouco antes do carnaval de 1950. O baile rolou nas dependências do Cine Itá, alugado para o fim. Eis um dos porquês do atraso. 

No dia e hora da primeira sessão do primeiro filme, a fila diante da bilheteria crescia quadra abaixo, à porta do advogado e político Correia Lima. Andava devagar. O troco escasso empacava o ingresso. O povo aproveitava a lentidão para fiar animados bate-papos sobre os assuntos do dia. O Brasil se preparava para sediar a Copa do Mundo de futebol, que acabou vencida pela seleção Uruguaia. O assunto rendeu comentários meses a fio. Choradeira. A fila se transformou num muro de lamentações.

As películas faziam-se variadas. As norte-americanas eram pura água com açúcar (happy end). Haviam os dramalhões mexicanos e as comédias italianas. As chanchadas da dupla Oscarito e Grande Otelo, coadjuvada por Anselmo Duarte, Eliana, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy tornaram-se líder absoluta de popularidade, apesar da precária aparelhagem de som dos cinemas. As falas mais pareciam taquaras rachadas. Nem por isso alguém perdia a piada. Tanto melhor. Ria-se muito. A torcida pelos mocinhos defensores da ordem e dos bons costumes gerava aflições a aplausos.

As películas estrangeiras eram legendadas dificultando a compreensão dos espectadores de pouca ou nenhuma leitura. Os filmes dublados em português eram raros. As colônias estrangeiras (italiana e japonesa) não perdiam as exibições em língua pátria. 

Décadas depois, dizia-se aos quatro cantos que o Cine Itá fechou devido a concorrência da televisão. Mas, a disputa político-comercial entre Zezico Alvim e Correia Lima meteu a colher de pau na conversa, provavelmente. 

Durante o governo do prefeito Beto Tricoli o município adquiriu o prédio do Itá, com o objetivo de transformá-lo num espaço multicultural. Ênfase no teatro. A reforma morreu na praia. Não se concretizou plenamente Em 2016 e 2017 os militantes da cultura realizaram inúmeros protestos em prol da imediata reinauguração do espaço Itá. O prédio foi abraçado pelos amigos da arte.

Nada adiantou. Os protestos continuaram.

No findar da legislatura de 2018 uma notícia encheu os atibaianos de esperança. A Câmara de vereadores, através da então presidente Roberta Barsotti, devolveu ao Chefe do executivo a sobra orçamentária de quase um milhão de reais.

Até aí nada de interessante, não fosse a inusitada solicitação legislativa no sentido de que essa quantia se destinasse à conclusão do prédio do Cine Itá. Rompeu-se criativamente a inércia camarista imposta pelas leis da República. Encontrou-se uma forma de original para se concretizar os anseios da sociedade. Em reunião pública realizada em 27-12-18 e o prefeito Saulo Pedroso comprometeu-se com a ideia.

 

Agora, só falta superar os trâmites burocráticos. O tempo de espera poderá ser longo se a população interessada cruzar os braços à espera do milagre. Mãos à obra. 

Enfim, muito bom se crie a tradição de se devolver as sobras orçamentárias da edilidade com destino certo ao setor cultural. Uma luz no fim do túnel da precariedade intelectual que massacra o país agora mais do que nunca. 

Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br

Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.

Contato: gilbertosant@terra.com.br


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