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07/12/2011

Fim do Mundo

Caiu-me nas mãos um folhetim produzido por pessoas que se declaram “católicos, apostólicos, romanos”. Na parte final do tema que pregam há um número de telefone e uns três “sites” para consulta. Não contatei nenhum remetente porque não creio que valeria a pena.

 

Vamos ao assunto: está chegando o fim do mundo para a maioria da humanidade. Também para a maior parte da Natureza. Os autores vão prevendo que a “Primavera Árabe” vai se juntar à China e à Rússia. Esta aliança dará início à terceira guerra mundial que terá início com bomba atômica que Israel despejará no Irã. Haveria a detonação de mais duas bombas. Início da guerra: maio de 2012. Junto a isso um meteoro se chocaria com nosso planeta causando enorme dano. Todos os vulcões entrariam em erupção ao mesmo tempo. Perto do Natal haveria três dias de escuridão total. Salvar-se-ão os que ficarem em suas casas, tiverem se confessado e comungado, e tiverem velas bentas para iluminar.

 

Na noite de Natal começaria um novo mundo com o resto dos eleitos! Mais. Haverá disseminação de doenças. Vírus foram introduzidos nas vacinas modernas para matar o maior numero de pessoas. Portanto nada de tomar vacinas! Salvar-se-ão os que tiverem o lencinho bento de Nossa Senhora e o óleo bento de São Rafael! Tudo isto está previsto na Bíblia.  O panfleto está cheio de citações dos textos apocalípticos da Sagrada Escritura. Ah! Os que criticarem estas previsões são falsos profetas e gente que não tem fé. Deve-se acreditar nos autores da mensagem porque o próprio Pai do céu fez a revelação!

 

O tal tema do fim do mundo recrudesceu após a chegada do filme “2012” e da interpretação do calendário maia. E não se deve esquecer que esse assunto está sempre presente no imaginário.

 

Também entre nós por uma interpretação errônea e limitada daquilo que os escritos bíblicos nos deixaram. Vamos buscar um caminho de racionalidade nesse burburinho. Entre os séculos II a.C e 2 d.C, Egito, Israel, Fenícia (região mais a oeste da Ásia e norte da África) sofreram dominação grega. Para tentar sobreviver ao domínio estrangeiro surge, entre os judeus, o gênero literário de apocalipse (revelação). Esse gênero é caracterizado pela linguagem simbólica. È carregado de números, animais conhecidos e fantásticos, figuras humanas mescladas a animais, etc. Trata-se de linguagem conhecida pelo podo dominado. Não conhecida pelos dominadores. É uma linguagem de esperança e de libertação. Para dar coragem. Para levar a não deixar-se desfigurar.

 

Essa linguagem entrou nos escritos do Novo Testamento. Utilizada para falar aos cristãos perseguidos, que acreditavam no Cristo, que a última palavra sobre a história e sobre a humanidade era do Senhor Ressuscitado. Surge a linguagem do fim dos tempos, do fim do mundo como base para a glorificação de Cristo e dos que lhe foram fiéis. Não podiam, as pessoas daquele tempo, ter outra visão que não uma cosmogonia que seria destruída para dar início a outra, totalmente perfeita. Como a comoção da natureza fazia parte do linguajar para falar da presença de Deus que a tudo faz estremecer (basta lembrar a manifestação a Moisés no monte Sinai) imagina-se que para a derrota final do mal nada mais correto que o mundo desapareça e comece uma nova terra! Deu-se a este modo de manifestação um clima de terror e medo. Quando, na verdade, por baixo das palavras de juízo e destruição, está a afirmação da esperança e da vitória do Cristo e dos seus irmãos e irmãs. Os dominadores que matam podem atingir a matéria não poderão atingir a razão da vida humana: viver a vida definitiva em Deus que para Ele nos criou.

 

A linguagem de fim de mundo deve ser entendida como o anseio que termine tudo aquilo que destrói a vida e a esperança. Tudo o que tira do ser humano a capacidade de vida digna. O juízo de Deus acontece no dia a dia quando somos chamados a ser sinal do seu amor. O fim do mundo, no sentido destrutivo, nós o realizamos também no dia a dia quando não cuidamos de viver a justiça, a honestidade. Quando infernizamos a vida dos outros. Quando destruímos a natureza pela ganancia e pelo descaso. Temos que temer o fim do mundo não pelos cataclismos e guerras. Temos que temer porque temos poder de destruir. O próximo ano pode ser luminoso - com todas as previsões destrutivas que os adivinhos do momento possam fazer. A vida é dom de Deus. Se nossas escolhas forem pela vida a Morte não vencerá.

Monsenhor Giovanni
pegiovan@uol.com.br

Em janeiro de 1982 foi designado para a Catedral de Bragança onde permaneceu por 26 anos. Em fevereiro de 2008 iniciou sua caminhada junto à comunidade de São João Batista, em Atibaia.


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