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31/01/2012

VELÓRIOS

Em razão de meu ministério como padre sou chamado para ir a velórios recomendar os mortos. Antes de entrar no sentido da “recomendação” sou levado a dizer que cada vez mais os velórios estão se tornando uma espécie de “happenings”. O que mais se faz, com poucas exceções, é uma conversa que vai ficando cada vez mais alta e animada. As piadas vão surgindo. Celulares tocando em todos os tons. Cafezinho, lanchinho, etc. Pouquíssimo silêncio, recolhimento. Quase nada de oração. Confesso que durante um tempo defendi a ideia que não deveria haver velório. A pessoa morreu, deveria ser logo enterrada. Dar-se-ia um tempo para a chegada de familiares próximos. Evitar-se-iam madrugadas solitárias e frias. Aquecidas com conversa fiada e mais umas biritas (conhaque para os chiques).

 

O importante era ter tido bom relacionamento com quem morreu e ter dado todo carinho durante a vida. Numa conversa com um amigo psiquiatra ele me fez ver que o velório é necessário para a introjeção do luto ocasionado pela perda. O velar alguém é importante para a conscientização e para o equilíbrio emocional em aprender a conviver com a morte, com a ausência física dos que nos deixam. A repetição continuada de como se deu a morte corresponde à verbalização com a qual, ao externar o que se sente, se caminha para a cura das quebras emocionais. Deixei-me convencer pelo doutor. Mas não deixei de ver com olhos críticos essa perda do sentido do decoro em relação à família que sofre. Velório é ao mesmo tempo lugar onde está o cadáver e o ato de velar quem morreu. Lugar de conduta composta e ato de amizade. Quanto aos lugares onde se realizam velórios noto que sua estruturação não facilita postura melhor. Quando há um só corpo a ser velado ainda se consegue alguma discrição. Quando são vários não é possível. Saletas pequenas onde poucas pessoas cabem fazem com que o espaço comum se torne pátio de conversa.

 

Deixo estrutura de lado para falar sobre o sentido da “recomendação dos mortos”. Recomendar alguém é gesto de amizade, interesse, confiança. Quando se precisa do favor de alguém que não se tem relação busca-se um amigo comum que nos recomende para que o favor que precisamos seja feito. Recomendar um defunto é dar um último gesto daquilo que se fez quando ele era vivo. Se durante a vida não tive atitude fraterna com quem morreu, na morte ele não precisa mais. Claro que do ponto de vista da fé Deus não precisa que ninguém lhe seja recomendado. Ele conhece a todos. Também quem morreu. A oração tem a dupla finalidade de lembrar que a reunião de parentes e amigos quer ser um gesto visível de uma solidariedade que foi vivida e uma atitude de fé no sentido de pedir a Deus que acolha quem encerrou a caminhada terrena. Ir a um velório, portanto, só tem sentido se marcado por uma solidariedade que se teve durante a vida e como expressão de fé (para quem crê) na vida eterna.

 

Hoje banalizamos tudo. Até o fato de termos que nos encher de tranquilizantes para suportar a morte dos nossos queridos. E, abro parêntesis, isso acontece também nos momentos de alegria. Estou cansado de ouvir que é preciso “tomar uma” para relaxar! Parece que não sabemos viver nem dor nem alegria se não houver algum componente químico externo que aja sobre nós. Parece que não podemos mais chorar, nem ter saudade. Parece que para encontrar alegria é preciso “beber todas”! A banalização que quer negar o fato da morte e não a enfrenta como ela realmente é traz risco de deturpação de realidades antropológicas fundamentais.

 

Não se pode esquecer que marcados pela eternidade somos finitos no tempo. E se vamos morrer “sob protesto” isso não anula as limitações do nosso ser. A riqueza da fé dos cristãos faz ver no fato dolorido da morte a certeza de realidade que não termina no caixão e no túmulo. O horizonte que se abre diante da morte é a certeza da eternidade. Por isso nossos velórios - enquanto atitude - deveriam ser sempre iluminados pela certeza da Esperança. Isso nos levaria a postura serena de compreender a dor da separação. Despertaria em nosso coração a tranquila alegria de sabermos em Deus aqueles que nos deixaram.

 

E, diante de posturas diversas daquelas que vemos, quem sabe, as estruturas dos velórios construídos ou pelo poder público ou pelas empresas interessadas, ofereceriam condições físicas mais aderentes àquilo que significa velar os mortos!

Monsenhor Giovanni
pegiovan@uol.com.br

Em janeiro de 1982 foi designado para a Catedral de Bragança onde permaneceu por 26 anos. Em fevereiro de 2008 iniciou sua caminhada junto à comunidade de São João Batista, em Atibaia.


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