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06/02/2012

VADA A BORDO, C....!

A frase acima, imperativa e utilizando uma expressão chula, típica dos italianos do sul e que se espalhou por toda a Itália pelo fenômeno da migração interna (no passado) e dos meios de comunicação (recentemente), entre as muitas ditas por Gregorio De Falco, comandante da Capitania dos Portos de Livorno, foi uma das utilizadas para tentar convencer o capitão do navio de turismo Costa Concordia, Francesco Schettino, a retomar seu lugar na nave adernada e cumprir sua missão de fazer com que todos os passageiros e tripulantes ficassem a salvo. Penso que muitos dos leitores tiveram acesso ao áspero diálogo ocorrido entre os dois. Quem não ouviu poderá ter acesso através dos recursos da internet. A frase curta e grossa despertou enorme admiração para com De Falco. Suscitou, todavia, sensata observação de sua esposa. Disse ela que era estranho transformar em herói quem apenas tinha cumprido seu dever.

 

A observação serve de base para que se tenha um meio de avaliação a quantas anda a consciência ética com que direcionamos nossas vidas. Alguém me passou, há algum tempo, uma série de atitudes completamente contrárias ao bem comum que são, todavia, usuais. Com uma observação: reclamamos tanto dos políticos, de que muitos são desonestos, corruptos, etc. Mas, muitas vezes, no nosso comportamento somos iguais. Antes de ir à lista (vou selecionar só alguns itens) lembro-me de dois que fazem parte do cotidiano de muita gente e que presencio não poucas vezes. Acontecem, normalmente, nas agências bancárias. Chegam, a vovó, carregando o bebê, e a mãe toda faceira. Entrando no banco a mamãe toma o nenê no colo e, tranquilamente, vai para lugar privilegiado! Mas se ela nem estava carregando o nenê, por que passar à frente de outros que também tem suas obrigações? De tempos para cá surgiram os “old office boys”. São idosos que prestam serviço a escritórios e assemelhados e entram na fila dos idosos não para resolver assuntos seus, mas utilizando fila especial vão acelerar pagamentos de gente que os paga para isso.

 

Ora, as filas especiais foram feitas para atender melhor e em menos tempo pessoas que, em razão de idade e saúde, precisam da preferência! Nós nos queixamos quando nos passam a perna, mas quando somos nós que fazemos isso sempre haverá boa desculpa! Aproveito para acrescentar situações de corrupção que não nos são estranhas: Estacionar sobre calçadas ou em locais proibidos; trocar voto por qualquer coisa; falar ao celular enquanto se dirige; beber e dirigir; num congestionamento em rodovia trafegar pelo acostamento; parar em fila dupla diante de escolas; pegar atestados médicos sem estar doente; pagar recibos para abater imposto de renda; não obedecer a limites de velocidade e tentar suborno...! Quantos fatos ainda poderiam ser acrescentados?  Como se pode pedir retidão dos outros se cada um de nós não encara a realidade da necessária coerência de comportamento?

 

A temática do comportamento me leva a olhar o viés religioso. O grande risco das pessoas que dizem crer em Deus e assumem uma determinada caminhada em igreja (comunidade de fé) é separar o que se crê daquilo que se faz. Aliás, esse tipo de cisão, nós podemos tê-lo no conjunto da nossa vida. Sabemos o que devemos fazer, mas não movemos a vontade para que se faça! Não é improvável celebrar ritos religiosos e que estes não influenciem na forma do exercício profissional, no tratamento para com as pessoas, no envolvimento dos setores que formam a convivência social.

 

Faço, sempre que possível, uma observação: no Brasil são mais de 90% de pessoas que se dizem cristãs, católicas e protestantes. Mais um bocado de gente que diz gostar de Jesus Cristo embora não o veja como os cristãos o veem. Se parte significativa da população tem Jesus em alta conta, como é possível conviver com a injustiça social, com bolsões de miséria, com as dificuldades que envolvem emprego, moradia, saúde, etc.? É sinal que a expressão da fé religiosa não está movendo a atuação nos diferentes campos. E, de acordo com as implicações morais, não está levando a corrigir aquilo que se aponta de defeitos nos outros!

 

Caberia aqui uma chamada ao estilo do comandante De Falco: “Vada a bordo, c...”! Para nós seria traduzido como “È hora de acordar, pô”! A forma digna como Deus quer que vivamos e pela qual Jesus Cristo deu a sua vida, depende da nossa necessária conversão. De não nos ajeitarmos à lógica do mundo (mundo entendido como as estruturas que favorecem todo tipo de tramoia para chegar a fins escusos). Somente a clareza dos valores que norteiam o bem comum e fazem ver em todo ser humano um irmão, será capaz de modificar a tentação do vale tudo!

 

 

Monsenhor Giovanni
pegiovan@uol.com.br

Em janeiro de 1982 foi designado para a Catedral de Bragança onde permaneceu por 26 anos. Em fevereiro de 2008 iniciou sua caminhada junto à comunidade de São João Batista, em Atibaia.


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