topo
Atibaia/SP
RSS  Twitter  Facebook 

Grupo JC
Acesse também:
Colunas deste autor:


Leia também:
Você está aqui: Home › Colunas › Monsenhor Giovanni
Aumentar fonte Diminuir fonte Imprimir
0
CompartilharTwitter Facebook Orkut
04/10/2017

Quando Deus é Injusto

 


No domingo que passou o texto do Evangelho de Mateus (20,1-16) trazia a parábola do dono da vinha. Jesus fala de um patrão que buscava os “boias frias” do seu tempo para a colheita de uva. A diária da época era uma moeda de prata. Contratados os trabalhadores da madrugada, precisando de mais gente, o vinhateiro vai saindo, em diversas horas, buscando mais gente e prometendo pagar o que fosse justo. A última saída e a última chamada acontecem uma hora antes do final da jornada de trabalho. Chega a hora do pagamento. O capataz foi instruído a começar pelos da última hora até chegar aos da primeira. Pagando a todos a jornada inteira. Os que tinham trabalhado mais, diante do fato, começaram a esfregar as mãos: se a turma do fim do dia ganhou o preço duma jornada inteira, eles iriam faturar muito mais! Surpresa! Recebem a jornada! Começa a “resmungação”: “Isso é injusto! A gente aguentou o dia inteiro! Essa turma só chegou agora e não suou a camisa! Como é que pode”? O fazendeiro diz a um deles: “Não combinei o preço da diária? Você não a recebeu? Então não reclame! O dinheiro é meu! Você cumpriu sua obrigação e eu cumpri o que tratei! Não cometi nenhuma injustiça”!  Nesta história Jesus Cristo deseja mostrar que o amor do Pai Celeste não tem limites. É pura gratuidade. E que nós devemos ter muito cuidado com uma certa mentalidade que afirma que temos “créditos”, “merecimentos” diante Dele. Não nos é estranha a maneira de pensar que quando fazemos o que devemos fazer acabamos por merecer favores de Deus! Quanto mais eu o sirvo, quanto mais eu o sigo, tanto mais eu mereço as suas graças! Deus se vê obrigado, de certa forma, a fazer-me coisas porque eu o obedeço! Em termos da doutrina aqui se coloca mais um dos pontos de divergência entre o cristianismo católico e protestante. A doutrina e a vivência do mérito levaram a exageros, especialmente na Idade Média, na questão da devoção aos santos, à Virgem Maria e, mesmo, ao relacionamento com o próprio Deus. A mentalidade era que a cada sacrifício, a cada ato de penitência, a cada ato de socorro, a cada prática religiosa, etc., corresponderiam determinadas intervenções divinas. Uma vez que fiz determinada ação Deus me responde com um determinado dom. Criou-se modo de agir mercantilista. Que volta e meia ainda persiste: faço determinada promessa para obter determinada graça! Compreende-se que, diante dos muitos abusos, os Reformadores protestantes tenham tomado posição radicalmente oposta e afirmado peremptoriamente que “tudo é Graça”! E que o ser humano nada pode fazer para merecer algo de Deus! A questão toda estava no “escondimento” da única mediação de Jesus Cristo. E na certeza da gratuidade do amor de Deus que não se move por barganhas. Hoje os tempos são diferentes. As devoções à Mãe do Senhor e nossa, aos santos, o modo de relacionamento com Deus são claramente marcados pela mediação “crístrica”. Tudo só tem sentido sob a luz do único mediador e Salvador Jesus Cristo. E que podemos falar em “merecimento” em sentido relativo (uma espécie de estímulo que nos ajuda a perseverar no caminho do Senhor). Muito bem, feita esta digressão sobre a questão do mérito, fica a situação da mesma paga para trabalhadores de tempos desiguais. Não entra em nossa lógica. Inda mais que os últimos recebem por primeiro! A lição final da parábola é que quem acha que Deus é injusto não faz do seu caminho com Ele um caminho de amor. É um cumpridor de tarefas que não vivencia a alegria de poder ser operário de primeira hora. Caminha por “obrigação”, sempre lamentando e invejando aqueles que, a seu ver, estão ou gozando ou jogando a vida fora! Jesus Cristo quer ensinar que, se fui convocado da primeira hora e sempre trabalhei como devia, tenho a felicidade de viver do melhor jeito possível porque estou na casa, na propriedade, na vida do “Patrão”. Sempre tenho o que é necessário. Não me falta nada. Vivo feliz pelo chamado e pela presença do Dono da Vinha. Se reclamo em relação aos  que  só aproveitam a última hora é porque não percebo a totalidade daquilo que o Dono colocou em minhas mãos. Não sei aproveitar do “estar” na vinha. Por isso sinto-me fraudado. E acho que o dono é injusto. O “problema” é meu. Não Dele! Eu, da primeira hora, não percebo nem quem me chamou, nem onde estou!  A chegada dos últimos é uma chance de ver a riqueza que sempre tive e não estou sabendo aproveitar! Os da última hora tem tempo menor. Mas descobriram que vale a pena!

Monsenhor Giovanni
pegiovan@uol.com.br

Em janeiro de 1982 foi designado para a Catedral de Bragança onde permaneceu por 26 anos. Em fevereiro de 2008 iniciou sua caminhada junto à comunidade de São João Batista, em Atibaia.


Publicidade
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Seja o primeiro a comentar!
Rodapé