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ENCHENTES E DESABAMENTOS: CULPA DE DEUS?
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Domingo de Ramos
Estamos acompanhando, mais uma vez, enchentes e desabamentos. Atingidas muitas cidades de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Já se cogita que serão mais de 50 mortos soterrados ou levados pelas águas. As perdas em casas, bens, documentos já são enormes.
Quando acontecem catástrofes naturais o pensamento se encaminha para a possível inércia de Deus ou seu descaso com o sofrimento das pessoas. Aparece, inevitavelmente, a pergunta “Por que Deus deixou acontecer”? A gente simples e ainda marcada por sentimento religioso caminha na linha de conformismo: “Deus quis assim”, “Deus sabe o que faz”, “Deus deu, Deus tirou”, etc.
Fico pensando em como se deformou a imagem de Deus e em como se entende o que é a sua vontade. No início da carta aos Efésios (1,3-15) Paulo usa as palavras escolha, predestinação e destinação para falar do desígnio divino sobre os seres humanos. Ali fica claro que Deus nos chamou a vida para sermos seus filhos. O destino humano, portanto, existe. É o de viver a vida divina. De ser em Cristo e com Cristo filhos e herdeiros. Ora, a fé nos diz que Deus nos ama com amor infinito e incansável e que sua vontade é o nosso bem.
Então por que as catástrofes que estamos vivendo? Permito-me tomar tópicos gerais dos escritos do profeta Isaías. No início de suas profecias ele fala da destruição de Jerusalém, do templo. Do saque e da escravização da nação. Por que isso aconteceu (587 AC)? Por que a invasão comandada por Nabucodonosor? O povo pensava que Deus se tinha esquecido dele e o abandonara à própria sorte. O profeta faz ver que a razão fundamental foi a corrupção na qual rei, autoridades e povo caíram. O profeta deixa claro que a desobediência aos preceitos da justiça, da fraternidade e do reconhecimento de que Deus era o Senhor levou ao enfraquecimento moral, à decadência e, finalmente ao exílio. Deus não queria nada disso. O povo fez sua escolha!
Ao longo do seu livro, diante da angústia de um povo que vai reconhecendo o seu erro, Isaías vai proclamando a promessa de que Deus mesmo viria cuidar do seu povo tal como o pastor cuida das suas ovelhas. Já que reis e autoridades não “pastorearam”, Ele o faria. Ao final de suas profecias o profeta fala da reconstrução. A cidade de Jerusalém, destruída e despovoada, tornar-se-ia o centro do mundo não só para o povo judeu, mas para todos os povos. Teria de volta seus filhos, suas riquezas e o respeito de todos os reis da Terra.
Olhando essas profecias e a realidade dos nossos dias podemos ter clareza que enchentes e desabamentos, sendo fenômenos naturais, são causados pela incompetência das pessoas e das autoridades em agir de forma correta na utilização do meio ambiente. Lembro algo que muitos leitores terão lido e visto: o rompimento da estrada-dique em Muriaé, RJ, é o terceiro em quatro anos. Como atribuir isso à ação divina? Mais: ficamos sabendo que, da verba destinada a obras pelos desastres de 2010, somente uma pequena parte foi utilizada. Uma prefeitura, que recebeu R$ 2.400.000,00 em donativos populares, não utilizou o dinheiro!
Há pessoas que estão há mais de um ano em escolas, ginásios de esporte, etc. A conclusão a que se chega é que a culpa do que acontece não pode ser creditada a Deus. É culpa de quem não faz o que deve! Não excluo aqui a responsabilidade menor (se assim se pode dizer) de quem joga lixo nos bueiros, nos córregos. Dos que constroem onde não se pode construir (sem desconhecer aqui o drama dos que não tem para onde ir).
Temos gente competente e recursos financeiros para medidas que preservem patrimônios e vidas. Precisamos de vontade política, desburocratização dos meios decisórios, fiscalização na aplicação das verbas (com punição a quem gasta mal ou não gasta quando necessário), aproveitamento dos profissionais que entendem do assunto e vigilância constante para que não haja leniência em relação às irregularidades.
A fé religiosa não pode ser utilizada para esconder a incompetência e os erros humanos. Se isso acontece, torna-se realidade a afirmativa de Karl Marx (um dos ideólogos do pensamento comunista) de que “a religião é o ópio do povo”. A religião é uma droga para anestesiar as pessoas. Se tudo depende de uma vontade divina não há o que fazer! Resta conformar-se! Não é nisso que os cristãos creem. A Natureza está em nossas mãos. Se cuidarmos dela ela nos dará vida e alegria. Se abusarmos dela ela nos dará dor e morte. Depende de nós!

Em janeiro de 1982 foi designado para a Catedral de Bragança onde permaneceu por 26 anos. Em fevereiro de 2008 iniciou sua caminhada junto à comunidade de São João Batista, em Atibaia.





